19/08/2025
Vila Nova da Barquinha e a Fotografia
19 de agosto (dia mundial da fotografia)
A relação entre Vila Nova da Barquinha e a fotografia deve ser lida à luz de um contexto mais vasto que é o do Ribatejo, território que, desde meados do século XIX, se inscreve na história da imagem em Portugal. A invenção da fotografia coincide com um momento cultural em que o romantismo e o nacionalismo procuravam símbolos fortes para fixar e difundir; nesse quadro, o Castelo de Almourol, com a sua aura templária, isolado no leito do Tejo, surge como motivo privilegiado para viajantes, artistas e fotógrafos que encontravam nele a síntese entre paisagem, mito e história.
Almourol tornou-se, assim, um dos primeiros ícones visuais da região, marcado pela vocação romântica da fotografia oitocentista, que não se limitava ao registo, mas procurava antes construir um imaginário do pitoresco e do sublime.
É igualmente no Ribatejo que encontramos a figura de Carlos Relvas (1838–1894), cuja notoriedade ultrapassa fronteiras e que se afirma como pioneiro incontornável da fotografia em Portugal. O seu estúdio de ferro e vidro, construído na Golegã em 1876, representa não apenas um gesto de afirmação pessoal, mas também a inscrição da fotografia num território até então mais associado à ruralidade e ao trabalho agrícola. Relvas dignificou a fotografia como prática artística e técnica, explorando a luz, a composição e a pose com uma sofisticação que o aproxima das artes plásticas e que, ao mesmo tempo, o distingue da mera função documental. É difícil compreender o peso cultural da fotografia ribatejana sem reconhecer que Relvas inaugurou uma linhagem de prestígio, dotando a região de uma visibilidade estética que ressoaria, décadas depois, em outros lugares e em outras práticas.
Se no século XIX a fotografia se afirmava através de figuras como Relvas e de imagens emblemáticas como as de Almourol, é já no início do século XX que Vila Nova da Barquinha se inscreve de forma mais direta nesta história, através da fundação da Photographia Alves, em 1913. Durante anos, o estúdio desempenhou um papel insubstituível na construção da memória visual da comunidade, produzindo retratos de família, registos de cerimónias civis e religiosas, postais ilustrados e documentação do espaço público. Mas mais importante ainda do que a longevidade da casa foi o facto de nela se destacar a figura de Gabriela Magalhães Alves, filha do fotógrafo tomarense António da Silva Magalhães, cuja presença rompeu convenções de género numa época em que a prática fotográfica estava quase exclusivamente reservada aos homens. Gabriela não se limitou a perpetuar a atividade do estúdio: ao assumir a direção e a prática fotográfica, converteu-se em mediadora de identidades, responsável por fixar a imagem de gerações de habitantes da Barquinha e por dar forma a uma memória coletiva que perdura. O seu trabalho, inscrito tanto na continuidade de uma tradição familiar como na singularidade do gesto feminino num campo marcado pela exclusão, revela como a fotografia é simultaneamente técnica, arte e instrumento de poder simbólico.
Ao longo do século XX, a prática fotográfica em Vila Nova da Barquinha foi-se expandindo para além do espaço controlado do estúdio. A fotografia começou a documentar as transformações da ruralidade, a registar os modos de vida associados ao rio e à agricultura, mas também a acompanhar as mudanças trazidas pela modernização. Se, por um lado, permaneceu como ferramenta de representação social — o retrato, a cerimónia, a memória familiar —, por outro foi assumindo cada vez mais a função de arquivo coletivo, capaz de narrar o lugar através de imagens que condensam tempo e identidade.
Já no século XXI, a criação do Parque de Escultura Contemporânea Almourol e do Centro de Estudos de Arte Contemporânea conferiu a Vila Nova da Barquinha uma nova centralidade cultural, na qual a fotografia reencontrou um espaço de diálogo com as artes visuais contemporâneas. Neste contexto, a fotografia não se limita ao papel documental, mas torna-se linguagem autoral, capaz de refletir criticamente sobre a paisagem, sobre a presença escultórica no espaço público e sobre a própria comunidade que se vê representada — ou interpelada — pelas imagens. A prática fotográfica, assim, reencontra no presente aquilo que já estava latente no século XIX: a possibilidade de pensar o território não apenas como objeto de registo, mas como campo de imaginação estética e de construção simbólica.
Deste percurso resulta uma narrativa que atravessa três tempos: o romantismo oitocentista de Almourol e a genialidade técnica de Carlos Relvas; a persistência documental e a ousadia feminina de Gabriela Magalhães Alves na Photographia Alves; e, por fim, a contemporaneidade em que a fotografia se cruza com a arte pública e se afirma como lugar de reflexão crítica.
Vila Nova da Barquinha revela-se, assim, não apenas como cenário fotográfico, mas como protagonista de uma história em que a fotografia se manifesta simultaneamente como memória, identidade e criação estética.