08/09/2026
João Glória e a Officina Progresso de Itabirito:
João Glória foi um fundidor e mecânico estabelecido em Itabirito, Minas Gerais, cuja atuação conhecida se concentra entre o final da década de 1920 e o início da década de 1940. Embora ainda faltem dados biográficos básicos — como nascimento, formação profissional e falecimento —, anúncios de época e sinos remanescentes permitem caracterizá-lo como um importante representante da fundição mineira de sinos na primeira metade do século XX.Mas como fundidor pratico, conhecia fundicão, mas não regras sonoras de afinacao.Seu acabamento era tambem bem simples, ja compatível com a simplificação decorativa compatível com era da modernidade.
Sua empresa denominava-se Officina Progresso. Em anúncios publicados no Jornal de Queluz, em 1929, aparece como:
“OFFICINA PROGRESSO — de João Gloria”
A propaganda informa que o estabelecimento possuía serviços de “mecânica e ferraria — movida a electricidade” e realizava “fundição de ferro e bronze”. O aspecto mais relevante para a história da campanologia mineira aparece destacado no próprio anúncio: a oficina era especializada “em fundição de sinos”. Produzia também moendas para cana e anunciava estar equipada para a “fundição de qualquer peça”.
Trata-se, portanto, não apenas de um fundidor artesanal de sinos, mas do responsável por uma pequena oficina metalúrgica mecanizada e eletrificada, que conjugava mecânica, ferraria e fundição. Dentro dessa produção diversificada, a fabricação e refundição de sinos constituíam uma especialidade explicitamente divulgada comercialmente.
Outro elemento significativo do anúncio é a indicação “ITABIRITO – E.F.C.B. – MINAS”, referência à Estrada de Ferro Central do Brasil. A informação provavelmente tinha importância comercial. Sinos, peças de bronze destinadas à refundição, ferro e outros materiais pesados podiam ser transportados pela rede ferroviária, ampliando consideravelmente o raio de atuação de uma oficina situada em Itabirito.
Os exemplares até agora identificados confirmam essa circulação. Há sinos de João Glória documentados em Diamantina, Ouro Preto/Santo Antônio do Leite, Conselheiro Lafaiete e Serro aos quais devemos acrescentar ainda, um exemplar na Matriz de Santo Antônio de Pádua, em Lagoa Dourada.
Os exemplares de Diamantina são particularmente importantes. Na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, um sino foi refundido em Itabirito por João Glória em 30 de outubro de 1928. Poucos meses depois, em 2 de março de 1929, aparece outro trabalho seu na Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Neste último caso, trata-se da refundição de um sino mais antigo, originalmente de 1778, e a própria inscrição registra Itabirito, a data e o nome João Glória.
Essas duas peças são importantes também para estabelecer que a atividade campanológica de João Glória antecede os anúncios conhecidos da Officina Progresso de 1929.
Durante a década de 1930, sua produção aparece em outras localidades mineiras. Em Conselheiro Lafaiete existe uma concentração particularmente significativa de sinos atribuídos ao fundidor de Itabirito. Foram identificados exemplares relacionados a Nossa Senhora das Candeias/Nossa Senhora da Luz, Gagé, São José do Rancho Novo e São Vicente.
Outro exemplar muito importante encontra-se na Capela de Nossa Senhora da Conceição, no Catete, em Santo Antônio do Leite, município de Ouro Preto. Sua inscrição registra:
“J.M.J. – Esmolas dos Santos Reis – 12.02.1937 – Itabirito – João Glória”. Esse J.M.J muito frequente no seus sinos são as abreviaturas da frase: Jesus- Maria- José que representa a Sagrada família, de quem com certeza era um grande devoto. Essa devoção aparece em foto recente do acervo do IMS que o em 1947 o fotografou na Romaria do Senhor Bom Jesus do Matosinhos em Congonhas Do Campo, vendendo seus Sinos, pendurados num tripé improvisado.
O exemplar mais tardio localizado até o momento é atribuído a 1942, em Capivari, município do Serro, no qual foram registradas as inscrições “Itabirito” e “João Glória”. Assim, com os documentos atualmente conhecidos, é possível estabelecer pelo menos o período 1928–1942 para sua produção campanológica, embora seja bastante provável que a oficina tenha funcionado antes e/ou depois dessas datas.
Inventário preliminar dos sinos de João Glória
Data Igreja/localidade Município Observação
30/10/1928 Igreja de N. Sra. do Amparo Diamantina Sino refundido em Itabirito por João Glória
02/03/1929 Igreja da Ordem Terceira do Carmo Diamantina Refundição de sino originalmente datado de 1778; inscrição com João Glória e Itabirito
10/04/1931 Antiga Capela de N. Sra. das Candeias / atual N. Sra. da Luz Conselheiro Lafaiete Sino preservado e atribuído a João Glória
12/02/1937 Capela de N. Sra. da Conceição, Catete Ouro Preto / Santo Antônio do Leite Assinado e datado: “Itabirito – João Glória”
1939 São José do Rancho Novo Conselheiro Lafaiete Sino atribuído/documentado como obra de João Glória
14/11/1940 São Vicente / Sagrado Coração de Jesus Conselheiro Lafaiete Inscrição registra João Glória, Itabirito e a data
1942 Capivari Serro Sino com referência a Itabirito e João Glória
s/d Gagé Conselheiro Lafaiete Sino atribuído a João Glória; data ainda não determinada
s/d Matriz de Santo Antônio de Pádua Lagoa Dourada Existência informada; inscrição e data ainda precisam ser verificadas
O conjunto documental permite reconhecer João Glória como um fundidor mineiro de relevância regional, atuante em Itabirito e responsável pela Officina Progresso. Diferentemente de uma oficina exclusivamente campanária, o estabelecimento realizava fundição de ferro e bronze, trabalhos de mecânica e ferraria e fabricação de equipamentos, destacando, contudo, a fundição de sinos como sua especialidade.
Os nove exemplares até agora identificados ou indicados, distribuídos por diferentes regiões de Minas Gerais, demonstram uma circulação que ultrapassava amplamente Itabirito. A presença de peças em Diamantina e Serro, relativamente distantes da sede da oficina, reforça a hipótese de uma rede comercial favorecida pela ferrovia.
Para a história da campanologia em Minas Gerais, João Glória parece ocupar uma posição especialmente interessante: sua produção representa a permanência da tradição mineira de fabricação e refundição de sinos dentro de uma oficina metalúrgica já eletrificada e inserida nos processos de modernização industrial das primeiras décadas do século XX.