06/07/2026
Pérola Bonfanti nasceu em 1983, no Rio de Janeiro, em berço iluminado: num encontro da arte com a psicanálise. Filha do artista Gianguido Bonfanti, professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e da psicanalista Marisa Maia, suas referências transitaram entre os mestres das artes e os símbolos do inconsciente humano. As travessias entre o sensível e o intangível – conceitos tão essenciais na obra de Pérola - sempre estiveram presentes em sua trajetória e formação.
A artista é virtuosa no desenho desde criança e na infância já se impactava com o universo encantado da mitologia, representando em seus desenhos o maravilhoso que escutava das histórias, mas também daquilo que intuía ser uma dimensão mais misteriosa da vida: o aspecto mágico da realidade, a relação entre o sagrado e o profano.
“(...) o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no Mundo, duas situações
existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história.” (Mircea Eliade, 2020, p.20)
Multitalentosa, graduou-se em Música Popular Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2009. Pérola é expressão tangível de uma voz sagrada; quem a escuta cantar percebe esse dom. Um som que transcende a música e se expressa igualmente em seus desenhos e pinturas.
Desde 2001, frequentou alguns cursos livres da EAV / Parque Lage, aprimorando a sua formação artística, até chegar a ser monitora do Programa Fundamentação, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, em 2012, quando desenvolveu sua pesquisa artística com tanta propriedade que transcendeu os muros da Escola e foi pintar na rua, com o coletivo Flutuarte, superando limites espaciais e estruturais como os de classes sociais e os de suporte físico.
Deslocou-se um pouco mais no espaço e passou dois anos em Nova York (2012-2014), especializando os seus estudos de arte urbana, com a sua temática mítica, agora simbolicamente transfigurada no jogo, como metodologia lúdica em que o tabuleiro era a própria cidade. Participou da Free Art Society, organização sediada no East Village focada em democratizar o acesso às artes, promovendo projetos multimídia em espaços públicos, como fizera anteriormente no Rio.
A partir deste trabalho, foi convidada a realizar em Viena a exposição Quatro Aces que itinerou pelo Museu Albertina e depois Museu de História da Arte (Hofburg), Tesouro Nacional, dentre outras instituições. O projeto obteve tanto sucesso que, como resultado, além de apresentar a instalação, a artista lecionou palestras e workshops na Alemanha, no Gamification Lab da Universidade Leuphana, ao sul de Hamburgo. Por meio da eletronic art, Pérola ampliou para o virtual a sua concepção espaço-temporal, já extensa e lúdica.
Voltou ao Brasil em 2015, mas seguiu desenvolvendo projetos com essas e outras organizações europeias, assim como participou de mostras e pesquisas artísticas em nosso país. Neste retorno ao espaço nativo, encontrou-se com a ancestralidade originária de nossa cultura e mergulhou no imaginário afrobrasileiro, mantendo seus temas mitológicos e o tempo cíclico neles implicado, mas ressignificando símbolos e rebuscando as técnicas artísticas e os suportes utilizados, movida que estava pelos fluxos da água e da terra. Trazendo do seu passado o carvão, incorporou pigmentos minerais e vegetais como o café, o urucum, folhas de ouro e prata e materiais pouco usuais como o linóleo. Manteve e reafirmou o seu “método lunar” e derramando-se em desenhos com aguadas, transbordou limites e suportes em sua obra.
A lua, que desde a infância inspirou a artista, de tema recorrente se tornou metodologia. Noturna, fásica, feminina, fluida, passional, mística e às vezes até invisível, o satélite da terra é símbolo das ressurgências em seu trabalho. Multifacetada, e ao mesmo tempo plena em cada fase, a lua é recorrência que se transforma em pintura sobre telas e desenhos sobre papéis, elaborados com materiais orgânicos, com ou sem aguadas. Matéria pictórica, a lua se (des)faz método, quando se reapresenta como contemplação meditativa, se refazendo por meio de nexos circulares entre selos, bolas de prata, olhos gravitais, linhas conceituais que fluem para além da temática e do espaço de cada obra. Há desenhos que somente se concluem em performances, numa temporalidade ritual que suspende o cronos e produz outros tempos e novos sentidos para a figuração contemporânea da artista que expande as obras “nas paredes”.
Pérola Bonfanti realizou exposições individuais nas galerias DialogArt (Viena), Wozen (Lisboa), Fornaciai Gallery (Florença), Galeria da Praça e Espaço Alienista (Rio de Janeiro), e participou de coletivas em instituições como o MARCO — Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul, o Centro Cultural dos Correios, o Centro Cultural da Justiça Federal e, em 2026, da exposição O Que Insiste em Viver, no bar conceitual Miolo (Rio de Janeiro).
Nessa mostra, a Galeria Evandro Carneiro Arte apresenta 46 trabalhos da artista, entre desenhos, pinturas, gravuras e objetos, além de uma obra a ser performada no dia 17/7/26, às 19h.
Laura Olivieri Carneiro
julho de 2026