Rio Ontem e Sempre

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💎 𝐎𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐜𝐚𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐨 𝐏𝐨𝐬𝐭𝐨 𝟔 💎📷 José Baptista Barreira Vianna – c.1900 – IMS📷 RO&S do mesmo ponto de vistaNo início do séc...
01/10/2026

💎 𝐎𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐜𝐚𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐨 𝐏𝐨𝐬𝐭𝐨 𝟔 💎

📷 José Baptista Barreira Vianna – c.1900 – IMS
📷 RO&S do mesmo ponto de vista

No início do século XX, José Baptista Barreira Vianna registrou as cercanias de sua propriedade, na esquina da atual Avenida Vieira Souto com a Rua Francisco Otaviano, fazendo um trabalho fantástico para nos ajudar a compreender a região no começo do século XX.

Muitas delas estão já postadas aqui.

Desta vez, resolveu ir para o outro lado do Arpoador.

Na Praia de Copacabana, no horizonte, a sequência formada pelos morros da Urca e do Pão de Açúcar continua permitindo reconhecer imediatamente a paisagem do atual Posto 6.

No primeiro plano, um grupo de homens, mulheres e crianças reunido junto às redes conta outra história daquele canto da praia.

São os pescadores e suas famílas. Eles já estavam lá.

A pesca naquele extremo de Copacabana é muito anterior à urbanização do bairro. Fotografias de Marc Ferrez feitas por volta de 1895 e 1900 já mostram canoas e pescadores na mesma região, quando praticamente nada do que hoje associamos à paisagem de Copacabana existia por ali.

A fotografia de Barreira Vianna acrescenta mais um registro a essa história. As grandes redes aparecem estendidas sobre a areia, enquanto o grupo se concentra junto à água. Ao largo, uma pequena embarcação completa uma cena que antecede em mais de vinte anos a criação formal da atual Colônia de Pescadores Z-13.

A Z-13 seria fundada somente em 29 de junho de 1923, Dia de São Pedro, no mesmo trecho da Praia de Copacabana. A data, portanto, não marca o início da pesca no Posto 6, mas a organização formal de uma atividade que já estava estabelecida ali havia décadas.

E ela sobreviveu à transformação quase inacreditável do entorno. A própria faixa de areia seria enormemente ampliada com as obras de alargamento da Avenida Atlântica e da praia. Ainda assim, a colônia continuou no Posto 6, mantendo a pesca artesanal com pequenas embarcações.

A casa de Vianna f**ava numa região que então estava começando a ser ocupada em Villa Ipanema. Em outra fotografia do conjunto, datada de 1902, ele registrou dali a Pedra do Arpoador e o fim da linha dos bonds, ainda com os trilhos avançando sobre a areia.

E sim, já a postamos aqui também.

O resultado desta aqui ficou particularmente interessante para um antes e depois porque, para reproduzir aproximadamente o enquadramento hoje, não basta voltar ao lugar onde o fotógrafo estava.

É preciso entrar no mar. Longe de ser um problema ... 😊

O ponto de vista que reproduzimos está literalmente dentro d'água, enquanto a areia onde Barreira Vianna fotografou os pescadores há cerca de 125 anos desapareceu sob a nova configuração da ponta do Arpoador.

A paisagem ao fundo permite fazer a comparação; o primeiro plano explica o tamanho da transformação.

Abraço carioca!
rj

✈✈✈ QUARTA AÉREA — 𝐔𝐦𝐚 𝐚𝐯𝐞𝐧𝐢𝐝𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐍𝐨𝐯𝐨 ✈✈✈📷 c.1929 – IMS📷 RO&S do mesmo ponto de vistaEsta QUARTA AÉREA exige...
30/09/2026

✈✈✈ QUARTA AÉREA — 𝐔𝐦𝐚 𝐚𝐯𝐞𝐧𝐢𝐝𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨 𝐄𝐬𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐍𝐨𝐯𝐨 ✈✈✈

📷 c.1929 – IMS
📷 RO&S do mesmo ponto de vista

Esta QUARTA AÉREA exige um pouco de atenção, porque a enorme avenida que imediatamente procuramos na fotografia simplesmente não existia.

E, desta vez, deixamos vocês livres para identif**ar: sem legendas! 😊

São uns 100 pontos icônicos aí, contando de bobeira ...

A câmera está sobre a região do Canal do Mangue e da atual Avenida Francisco Bicalho, olhando da Zona Norte em direção ao Centro e à Baía de Guanabara. Bem à frente, na sequência do canal, está a faixa da cidade que, pouco mais de uma década depois, seria arrasada para a abertura da Avenida Presidente Vargas.

E “arrasada” aqui não é força de expressão.

A fotografia circa 1929. As obras da Presidente Vargas seriam realizadas durante o Estado Novo, sob Getúlio Vargas, na administração de Henrique Dodsworth, prefeito do então Distrito Federal nomeado pelo presidente. A avenida seria inaugurada em 7 de setembro de 1944.

O objetivo urbanístico declarado era criar um grande eixo de circulação entre o Centro e a Zona Norte, melhorando também as condições de saneamento de uma cidade que crescia e enfrentava problemas reais de trânsito.

Só que não havia uma avenida esperando para ser alargada.

Havia uma cidade no caminho.

Partindo da região da Praça Onze na direção da Baía, o primeiro trecho atingiria duas antigas ruas paralelas: Visconde de Itaúna e Senador Eusébio. Entre elas existia uma longa sucessão de quarteirões ocupados por casas, sobrados, comércio, instituições e uma intensa vida urbana.

O Campo de Santana interrompia esse primeiro conjunto.

Depois dele, seguindo no sentido da Candelária, vinham General Câmara e São Pedro, novamente com uma longa sucessão de quarteirões entre as duas.

Visconde de Itaúna e Senador Eusébio. Campo de Santana. General Câmara e São Pedro. As quatro ruas foram eliminadas.

E eliminar uma rua é muito mais radical do que derrubar os prédios que havia nela. O próprio logradouro deixa de existir. Desaparecem endereços, numerações e esquinas. Até edif**ações preservadas nas bordas da intervenção passaram a ter endereço na nova Avenida Presidente Vargas.

A Praça Onze também desapareceu na operação. E já contamos aqui no RO&S o que isso representou. Não era apenas mais uma praça do Centro: estava profundamente ligada à população negra, ao samba, ao carnaval e às comunidades de imigrantes que se estabeleceram naquela região.

O Campo de Santana perdeu parte de sua área. Desapareceram o Largo de São Domingos e outros trechos de uma malha urbana formada durante séculos.

E ainda sem falar nas igrejas históricas ...
Entre elas estava São Pedro dos Clérigos, iniciada no século XVIII, com sua excepcional planta curvilínea. A igreja já era tombada pelo SPHAN. O tombamento foi cancelado por decreto e ela foi demolida para permitir a passagem da avenida.

E aqui a história começa a f**ar ainda mais indigesta.

A destruição não foi apenas uma consequência inevitável de uma necessidade técnica. O próprio SPHAN tentou evitá-la.

Em 1940, Rodrigo Melo Franco de Andrade apresentou uma variante para o traçado. Argumentava que o projeto da Prefeitura mutilaria o Campo de Santana e destruiria patrimônio histórico e artístico e propunha um desvio que, segundo o órgão, permitiria preservar aqueles bens sem abandonar os objetivos da nova ligação viária.

A proposta não prevaleceu.

A Prefeitura defendeu a manutenção do grande eixo retilíneo. Na discussão aparecem expressamente os novos edifícios da Estação D. Pedro II e do Ministério da Guerra como elementos que justif**ariam a configuração pretendida para aquela área.

E o Ministério da Guerra está justamente ali, no caminho monumental que a nova avenida atravessaria.

Isso ajuda a entender que estamos diante de muito mais do que uma solução para o trânsito. A obra tem todas as características de troféu de exaltação a um regime, como motivação principal.

A própria documentação do Arquivo Geral da Cidade relaciona a obra ao modelo de urbanismo monumental do Estado Novo e à intenção política de exaltar Getúlio Vargas. Não por acaso, aquela gigantesca avenida aberta na capital da República recebeu o nome do próprio ditador que governava o país.

Foram 525 prédios demolidos, segundo o balanço apresentado pela administração de Henrique Dodsworth.

E, amigos, devem ter sido bem mais do que estes 525, porque dados negativos são sempre manipulados para baixo pelo poder público. Reduz o desgaste de uma obra que foi muito (e corretamente) criticada.

Estamos falando de um impacto direto em dezenas de milhares de pessoas. Talvez centena de milhar.

É evidente que o Rio precisava se modernizar. Cidades crescem, sistemas viários tornam-se insuficientes e obras de infraestrutura algumas vezes exigem intervenções dolorosas. Seria simplista olhar para a cidade dos anos 1940 com os olhos de hoje e fingir que nada precisava ser feito.

O que não era inevitável era fazer exatamente daquela maneira.

A Presidente Vargas é também uma obra profundamente representativa do regime que a construiu e do seu líder: autoritária e megalômana.

Não bastava resolver um problema de circulação. Produziu-se uma avenida monumental, absolutamente retilínea, atravessando de maneira ostensiva o coração da Capital Federal, passando pelo Campo de Santana, pela Central do Brasil, pelo Ministério da Guerra e chegando à Candelária. Uma obra com escala suficiente para funcionar também como vitrine do poder que a realizava.

Quatro ruas desapareceram. A Praça Onze desapareceu. Centenas de edifícios foram derrubados. Igrejas históricas foram demolidas. Um bem que o próprio Estado havia decidido proteger teve seu tombamento cancelado para que pudesse ser destruído.

Tudo isso numa cidade cuja engenharia já possuía recursos para enfrentar obstáculos urbanos de outras maneiras e na qual até uma alternativa de traçado menos destrutiva chegou a ser formalmente proposta.

A fotografia de 1929 torna tudo isso particularmente brutal porque permite olhar para aquele trecho antes da decisão.

A Presidente Vargas não ocupou um vazio.

O vazio foi criado para ela.

Abraço carioca!
rj

💎 𝐏𝐫𝐚𝐜̧𝐚 𝐓𝐢𝐫𝐚𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬, 𝐀𝐬𝐬𝐢𝐬𝐭ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐏𝐨𝐥𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐞 𝐨 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐇𝐢𝐬𝐭ó𝐫𝐢𝐜𝐨 💎📷 Guilherme Santos – c.1917 – IMS📷 RO&S do mesmo ponto d...
29/09/2026

💎 𝐏𝐫𝐚𝐜̧𝐚 𝐓𝐢𝐫𝐚𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬, 𝐀𝐬𝐬𝐢𝐬𝐭ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐏𝐨𝐥𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐞 𝐨 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐇𝐢𝐬𝐭ó𝐫𝐢𝐜𝐨 💎

📷 Guilherme Santos – c.1917 – IMS
📷 RO&S do mesmo ponto de vista

Guilherme Santos estava no extremo da Praça Tiradentes lado dàs ruas Sete de Setembro e Constituição, olhando para o outro lado da praça.

Ao fundo, só pra situar melhor, a Rua da Carioca chega à praça pela esquerda e, logo adiante, à direita, começa a Rua Visconde do Rio Branco, seguindo em direção ao Campo de Santana.

Bem no meio da fotografia aparece um prédio que ajuda muito a localizar o ponto: a Assistência Policial, inaugurada em 1908. Com sua pequena torre bastante característica, é também uma das melhores referências para o facílimo encaixe com a imagem atual.

Até por não ser a única. Mais de um século separa as duas fotografias e chama atenção a quantidade de construções que sobreviveu naquela lateral da praça, verdadeiro exemplar do Centro Histórico.

>>Há uma série de postagens sobre a Praça Tiradentes no RO&S. Vale a pena ver e ler.

A Praça Tiradentes já carregava muita história quando Guilherme Santos colocou a câmera ali. Durante o período colonial, a região recebeu diferentes denominações, entre elas Rossio Grande, Campo dos Ciganos e Campo da Lampadosa. Depois tornou-se Praça da Constituição.

Somente em 1890, já na República, recebeu o nome de Praça Tiradentes, homenageando o inconfidente protético Joaquim José da Silva Xavier, submetido à barbárie do Estado justif**ada por uma suposta traição à pátria.

Mas enfim, seguindo, daí uma combinação que pode parecer estranha para quem nunca prestou atenção: a praça dedicada a Tiradentes tem como seu grande monumento uma enorme estátua equestre de D. Pedro I.

A explicação está simplesmente na cronologia. O monumento é muito anterior ao nome atual da praça. Foi inaugurado em 30 de março de 1862, ainda durante o Império, projetado pelo brasileiro João Maximiano Mafra e executado em Paris pelo escultor francês Louis Rochet. Tiradentes só daria nome ao logradouro quase três décadas depois. A estátua não aparece neste enquadramento, mas já estava na praça havia mais de meio século quando a fotografia foi feita.

Naquele início do século XX, a Praça Tiradentes era também um dos grandes centros de diversão do Rio. Teatros, cafés, hotéis, restaurantes, casas de espetáculo e uma intensa vida noturna faziam daquele pedaço do Centro um dos principais endereços da boemia carioca, antes de a Cinelândia assumir boa parte desse papel.

Os trilhos que atravessam a imagem lembram outra característica daquele Rio. A praça era um importante ponto de passagem dos bonds, servida por linhas que a conectavam a diferentes partes do Centro e da cidade. Teatro, comércio, repartições, transporte e vida noturna dividiam um espaço relativamente pequeno e extremamente movimentado.

Já a Assistência Policial, que aparece ao fundo, tem uma cadeia histórica própria — e longa.

Inaugurado em 1908, o prédio servia ao atendimento de urgência da cidade, recebendo feridos, acidentados e pessoas que necessitavam de socorro nas ruas. Posteriormente, passou a ter utilização policial e tornou-se sede do 13º Batalhão da Polícia Militar, uma das unidades mais conhecidas da PMERJ no Centro.

O 13º BPM foi extinto naquele endereço em 2011, mas o prédio permaneceu. Em 2014 começaram obras para transformá-lo em sede do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas – BPTur, dentro da preparação da cidade para o ciclo dos grandes eventos e, particularmente, para os Jogos Olímpicos de 2016.

A obra não chegou ao fim ......

Em 2018 surgiu outra tentativa: a Polícia Militar anunciou que o antigo quartel seria reformado para receber a sede definitiva do RECOM – Rondas Especiais e Controle de Multidões.

Também não aconteceu ....

As reformas interrompidas deixaram ainda uma situação complicada. Intervenções feitas no interior atingiram antigas paredes estruturais sem que a obra chegasse à etapa necessária de reforço, e relatórios da própria corporação apontaram risco estrutural. Partes do imóvel passaram a ser mantidas com escoramento.

O edifício permanece pertencendo ao Estado e sem recuperar uma utilização compatível com sua dimensão e sua história. Em documentação da própria PMERJ de 2024, mais de uma década depois da extinção do batalhão, ele ainda aparecia simplesmente como “Antigo 13º BPM – Praça Tiradentes”.

Há ainda uma pequena armadilha histórica na fotografia. O catálogo do IMS faz referência à Rua da Carioca, e algumas reconstruções cartográf**as fazem essa rua parecer prolongar-se pela lateral da praça até o início da Visconde do Rio Branco.

Não é bem assim.

Guilherme Santos estava fotografando a Praça Tiradentes. A Rua da Carioca chega ao extremo oposto pela esquerda e a Visconde do Rio Branco começa logo depois, à direita. O trecho entre elas pertence à própria praça, como mostram inclusive os endereços históricos dos imóveis daquele alinhamento.

É uma distinção pequena no mapa, mas importante quando tentamos reconstruir a cidade antiga: continuidade visual de um eixo viário não signif**a necessariamente continuidade do logradouro.

O prédio da assistência, só como exemplo, f**a oficialmente na “Pça. Tiradentes 55/57” ... Não é Rua da Carioca e nem Visconde do Rio Branco

E talvez o que mais chame atenção neste antes e depois seja justamente aquilo que não mudou. Em uma região do Centro que sofreu inúmeras demolições e transformações ao longo do século XX, boa parte daquela fileira fotografada em 1917 continua de pé mais de cem anos depois.

É sempre muito legal quando encontramos isso!

Abraço carioca!

💎 𝐃𝐫𝐮𝐦𝐦𝐨𝐧𝐝, 𝐨 𝐉𝐚𝐫𝐝𝐢𝐦 𝐙𝐨𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐨 𝐞 𝐨 𝐉𝐨𝐠𝐨 𝐝𝐨 𝐁𝐢𝐜𝐡𝐨 💎📷 Jardim Zoológico de Vila Isabel – c.1915 – IMS📷 Ingressos do Jardim ...
28/09/2026

💎 𝐃𝐫𝐮𝐦𝐦𝐨𝐧𝐝, 𝐨 𝐉𝐚𝐫𝐝𝐢𝐦 𝐙𝐨𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐨 𝐞 𝐨 𝐉𝐨𝐠𝐨 𝐝𝐨 𝐁𝐢𝐜𝐡𝐨 💎

📷 Jardim Zoológico de Vila Isabel – c.1915 – IMS
📷 Ingressos do Jardim Zoológico e João Batista Viana Drummond – montagem RO&S
📷 RO&S do mesmo ponto de vista

Antes de virar nome de praça, Barão de Drummond foi João Batista Viana Drummond, o criador do bairro de Vila Isabel e o homem que, tentando manter funcionando um jardim zoológico, acabou dando ao Brasil uma instituição muito mais resistente que o próprio zoológico: o Jogo do Bicho.

A história começa ainda durante o Império. Drummond estava envolvido nos negócios de urbanização das antigas terras da Fazenda dos Macacos, das quais surgiria Vila Isabel. O novo bairro era um empreendimento planejado, com ruas largas, transporte por bonds e equipamentos capazes não apenas de atender aos moradores, mas também de valorizar os terrenos colocados à venda. Nesse contexto surgiu a ideia de instalar ali um grande jardim zoológico.

O pedido para sua criação foi apresentado na década de 1880. O projeto arquitetônico ficou a cargo de José Magalhães e começou a ser executado em 1886.

O Jardim Zoológico abriu ao público em 6 de janeiro de 1888, recebendo naquele primeiro dia 809 visitantes a pé e outros 15 a cavalo.

Afinal, um bom cavalo ainda era o meio de transporte mais popular.

A inauguração oficial aconteceria meses depois. Ainda em 1888, João Batista Viana Drummond recebeu de D. Pedro II o título de Barão de Drummond.

E aquilo estava muito longe de ser apenas meia dúzia de jaulas espalhadas pelo mato. O Zoológico de Vila Isabel ocupava uma área enorme na encosta da Serra do Engenho Novo. As fontes variam nas dimensões, mas registros da época chegam a 270 mil m2 e descrevem um parque com bosques, lagos, riachos, repuxos, pontes, chalés e restaurante.

Havia animais da fauna brasileira e espécies estrangeiras, entre elas elefantes, girafas e tigres. Rui Barbosa chegou a doar duas seriemas; a princesa Isabel, uma lhama. Bandas de música também se apresentavam no parque.

Entretenimento universal. Era zoológico, parque e lugar de passeio numa região da cidade que ainda estava sendo ocupada.

Manter tudo aquilo custava uma fortuna. Durante o Império, o empreendimento contou com auxílio público. A mudança de regime agravou a situação financeira e Drummond procurou outras maneiras de sustentar o parque. Em 1890, conseguiu autorização da Intendência Municipal para explorar em suas dependências “jogos públicos lícitos”, sob fiscalização. Era uma tentativa bastante objetiva de produzir receita para um empreendimento caro demais para depender apenas da bilheteria.

Dois anos depois apareceu a solução que faria o zoológico entrar definitivamente para a história brasileira.

Em 3 de julho de 1892, foi realizado o primeiro sorteio do Jogo do Bicho. Um sistema de simplicidade digna das idéias geniais.

Escolheu-se 25 animais. Os ingressos do zoológico eram associados a esses bichos e, na entrada, f**ava escondida a figura do animal escolhido para aquele dia. No fim da tarde o bicho era revelado. Quem tivesse ingresso correspondente recebia o prêmio.

No primeiro sorteio, deu avestruz. A imprensa do dia seguinte registrou a novidade — e o sucesso.

👉 A participação do mexicano Manuel — ou Manoel — Zevada aparece em diferentes relatos sobre a criação do sistema. Ele trabalhava com Drummond e conhecia uma modalidade semelhante, ligada ao chamado “jogo das flores”. A adaptação das flores para os animais do zoológico ajudaria a produzir aquilo que conhecemos até hoje.

O ingresso custava mil-réis. E os bilhetes que sobreviveram são deliciosos documentos daquela história: “Entrada no Jardim Zoológico”, o valor bem visível e, ao lado, a figura de um dos animais.

Só que o negócio funcionou bem demais e, assim sendo, lógico que a coisa rapidamente foi desvirtuada gerando um mercado negro ... né? Nossa, que surpresa ... 😄

O jogo rapidamente deixou de depender da visita aos animais. Bilhetes passaram a circular fora do zoológico, apostas eram feitas em outros pontos da cidade e o resultado ganhou divulgação. Aquilo que nascera como uma engenhoca para ajudar a pagar comida de bicho começava a se transformar no Jogo do Bicho que o Rio conheceria pelo século seguinte.

A tolerância oficial durou pouco. Em 1895, apenas três anos depois da primeira extração, terminou a autorização para aquela exploração, e o jogo entrou na ilegalidade, mas ninguém parece que se incomodou muito com isso e o Jogo do Bicho continuou existindo.

👉E existe até hoje. E não vai acabar ... Atualmente funciona quase tão bem e quase tão atualizado tecnologicamente quanto apostar nas Loterias da Caixa.

Drummond, porém, não viveria muito para acompanhar a criatura que havia "parido". Morreu em agosto de 1897. O zoológico passou posteriormente às mãos de seu sobrinho Carlos Drummond Franklin e continuou funcionando durante décadas, atravessando sucessivas dificuldades financeiras e mudanças de administração. Houve investimentos em outras atividades, inclusive instalações destinadas a torneios atléticos, numa tentativa de manter vivo aquele enorme espaço de lazer.

No fim da década de 1920 sua decadência já era evidente e, depois de sucessivas crises, fechou ao público em dezembro de 1939. A liquidação daquele patrimônio continuaria em 1940. Há documentação indicando que os direitos sobre a área e a coleção animal foram adquiridos naquele ano pelo poder público. Parte dos animais teria sido levada provisoriamente para a Fazenda Modelo, em Santa Cruz.

Aqui cabe corrigir uma versão muito repetida da história: não foi simplesmente fechar o zoológico de Vila Isabel e levar tudo para a Quinta da Boa Vista.

O novo Jardim Zoológico do Rio seria instalado na Quinta da Boa Vista alguns anos depois. As fontes divergem até na data exata de sua inauguração — aparece frequentemente 1945, enquanto outras referências institucionais apontam 1940, e há lacunas sobre o destino da coleção de Vila Isabel nesse intervalo. Pesquisa museológica baseada em documentação do Arquivo da Cidade registra inclusive que parte dos animais foi encaminhada a Santa Cruz e que a cidade passou alguns anos sem uma coleção zoológica viva aberta regularmente ao público.

O que não foi junto para São Cristóvão, evidentemente, foi o terreno. E que terreno!

A gigantesca área do antigo zoológico, entre a Rua Visconde de Santa Isabel, a Barão do Bom Retiro e a Costa Pereira, permaneceu durante anos sem destino compatível com a dimensão e a importância anterior. A mata que cercava o velho parque também foi sendo ocupada, e a paisagem da antiga Serra do Engenho Novo mudaria radicalmente ao longo do século XX.

Em 1957, parte do antigo terreno foi destinada a outras finalidades e o restante transformado em logradouro público. O Departamento de Parques e Jardins cercou a área, recuperou os jardins, implantou um viveiro de plantas e criou espaço para crianças. Curiosamente, parte dos gradis utilizados ali veio do Campo de Santana.

Em janeiro de 1958 surgiu oficialmente o Viveiro de Vila Isabel.

Em 12 de outubro de 1967, o parque recebeu o nome que conserva: Recanto do Trovador.

Mas o Recanto do Trovador atual é apenas uma fração daquele mundo. O parque de hoje tem algumas dezenas de milhares de metros quadrados, enquanto o zoológico original ocupava algo na ordem de um quarto de milhão. Dentro dele funciona atualmente também a Vila Olímpica Artur da Távola.

👉E um pequeno apêndice, antes de seguirmos: está em estado de abandono!

Na comparação das imagens, a escala dessa transformação quase desaparece. A entrada atual do Recanto do Trovador está aproximadamente no ponto em que funcionava o acesso ao velho Jardim Zoológico, na Rua Visconde de Santa Isabel. O portão monumental, as construções laterais, os letreiros e naturalmente os animais desapareceram. Ficaram o terreno, parte da vegetação e a memória de uma história absolutamente improvável.

Abraço carioca!

Nota: Esta postagem trata da origem do Jogo do Bicho e de sua relação com o antigo Jardim Zoológico de Vila Isabel e seu(s) idealizador(es). Não estamos abordando aqui o que aconteceu depois: a organização dos grupos que passaram a explorá-lo, as relações com outras atividades ilegais e a transformação de parte desse universo em criminalidade pesada.

Essa é outra história — e uma discussão bem mais complicada sobre onde termina o jogo como financiamento de um jardim zoológico e começa todo o império desvirtuado que se construiu em torno dele.

(.rj)

💎 𝐏𝐫𝐚𝐢𝐚 𝐂𝐥𝐮𝐛 𝐞 𝐚 𝐅𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐒𝐨𝐦𝐛𝐫𝐢𝐧𝐡𝐚 💎📷 Guilherme Santos – 01/12/1929 - IMS📷 RO&S do mesmo ponto de vistaNa esquina da Av...
27/09/2026

💎 𝐏𝐫𝐚𝐢𝐚 𝐂𝐥𝐮𝐛 𝐞 𝐚 𝐅𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐒𝐨𝐦𝐛𝐫𝐢𝐧𝐡𝐚 💎

📷 Guilherme Santos – 01/12/1929 - IMS
📷 RO&S do mesmo ponto de vista

Na esquina da Avenida Atlântica com Miguel Lemos, em Copacabana, um grupo se reúne junto ao pequeno canteiro em 1929. Ao fundo, o bairro ainda é dominado pelos palacetes, e a encosta que aparece entre eles ajuda a localizar com precisão um cruzamento hoje completamente fechado por edifícios.

Guilherme Santos identificou o registro como relacionado à Festa da Sombrinha, um dos eventos promovidos pelo Praia Club, que tinha sua sede muito próximo dali, na Avenida Atlântica 3170, entre as atuais Rua Bolívar e Constante Ramos, onde está o Edifício Embaixador desde 1935.

Fundado em setembro de 1927 por moradores de Copacabana, o Praia Club inaugurou sua sede na Avenida Atlântica em 1928 e rapidamente entrou no circuito social do bairro. Promovia bailes, competições esportivas, festas e eventos ligados à praia, que naquele final dos anos 1920 assumia definitivamente um papel central nos hábitos e na vida social carioca.

A Revista da Semana, de 23 de novembro de 1929, anuncia:

"0 elegante Praia Club, solemnizando a abertura official da estação balnearia,
em Copacabana, realiza amanhã, 24, a já tradicional Festa da Sombrinha.
Dado o êxito dos annos anteriores antecipamos os nossos melhores augurios."

Era uma espécie de evento de “moda verão”. As moças desfilavam pela praia carregando sombrinhas especialmente preparadas para o concurso, avaliadas por critérios como beleza e originalidade.

Entretanto, o evento acabou sendo realizado em 1º de dezembro, adiado em virtude de instabilidade do tempo. A imprensa descreveu uma Copacabana tomada pelas sombrinhas entre os postos 4 e 6 e tratou a festa como um acontecimento que já entrava no calendário social do bairro.

Reuniu modelos de formatos e decorações variados e terminou com premiação das concorrentes. O desfile aconteceu diante do Praia Club, mas tomou a orla e atraía público de diferentes partes da cidade.

Na foto de Guilherme Santos, que, na altura da Rua Miguel Lemos, não está no “epicentro” do evento, quase não aparecem as famosas sombrinhas. Aparecem, porém, os participantes, automóveis, os palacetes e uma Copacabana em plena transformação, quando a praia deixava de ser apenas lugar de banho para se tornar também um dos principais espaços de sociabilidade e lazer da cidade.

Abraço carioca!

💎 𝐀 𝐄𝐧𝐭𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐋𝐞𝐦𝐞 💎📷 c.1907 - IMS📷 RO&S do mesmo ponto de vistaAgora um pouquinho do desenvolvimento do Leme, proporci...
26/09/2026

💎 𝐀 𝐄𝐧𝐭𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐋𝐞𝐦𝐞 💎

📷 c.1907 - IMS
📷 RO&S do mesmo ponto de vista

Agora um pouquinho do desenvolvimento do Leme, proporcionado pelo Túnel Novo.

Esta era a Rua Bernardo de Vasconcellos, atual Rua Gustavo Sampaio, esquina com a antiga Rua Salvador Correia, atual Avenida Princesa Isabel.

👉 Em 1907, Gustavo Sampaio ainda não era seu nome. Somente em 1917 receberia a denominação atual, em homenagem ao tenente Gustavo Sampaio, morto durante a Revolta da Armada.

Vemos o caminho livre em direção ao Morro do Leme.

A diferença mais impressionante está na ocupação. No lugar da massa contínua de edifícios que hoje fecha a perspectiva, aparecem poucas construções, terrenos ainda vazios e a encosta praticamente livre. Os trilhos e a extensa rede aérea dos bonds, entretanto, mostram que a infraestrutura de transporte já havia chegado antes da ocupação da área propriamente dita.

Como citamos acima, o momento é especialmente interessante porque o Túnel Carioca havia sido inaugurado no ano anterior, em 4 de março de 1906. A nova galeria, depois conhecida como Túnel do Leme e Túnel Novo, ligava Botafogo diretamente à Rua Salvador Correia. Era uma alternativa ao antigo Túnel Velho, aberto em 1892 e situado bem mais ao sul. A ligação encurtou o caminho para o Leme e teve papel decisivo na expansão daquela parte da cidade.

Os bonds, na verdade, já frequentavam o Leme antes do novo túnel. Um ramal chegara ao bairro em 1900 e a tração elétrica foi implantada em 1903. Com a abertura do Túnel Carioca, em 1906, a Companhia Jardim Botânico passou a dispor de uma ligação muito mais direta.

À esquerda, no alto da encosta, aparece uma construção isolada, que não conseguimos identif**ar proprietário ou procedência, enquanto a base do morro ainda apresenta cortes recentes e grandes áreas sem ocupação.

A própria Rua Bernardo de Vasconcellos estava longe da aparência que teria poucos anos depois: em 1920, já rebatizada Gustavo Sampaio, registrava mais de uma centena de construções.

Na imagem atual, destaque para os fundos do original Hotel Meridien, atualmente Hotel Hilton Copacabana, embora esteja no Leme ... 😄

👉Esta confusão Copacabana/Leme nunca terá fim ... 😄 ... E ainda vamos apimentá-la mais em muito breve ... 🥳 🥳 🥳

Esta fotografia é mais uma das que já apresentamos aqui que pertence a um extraordinário conjunto de registros de 1907, sem autoria em catálogo, mas preservada pelo Instituto Moreira Salles, que documentou em dezenas de imagens diferentes pontos do Rio no início do século XX.

Abraço carioca!

💎 𝐇𝐢𝐩𝐨́𝐝𝐫𝐨𝐦𝐨 𝐝𝐚 𝐆𝐚́𝐯𝐞𝐚 𝐞 𝐚 𝐏𝐫𝐚𝐜̧𝐚 𝐒𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐃𝐮𝐦𝐨𝐧𝐭 💎 📷 c.1933 — IMS📷 RO&S - Do mesmo ponto de vista no século XXIHá alguns ...
25/09/2026

💎 𝐇𝐢𝐩𝐨́𝐝𝐫𝐨𝐦𝐨 𝐝𝐚 𝐆𝐚́𝐯𝐞𝐚 𝐞 𝐚 𝐏𝐫𝐚𝐜̧𝐚 𝐒𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐃𝐮𝐦𝐨𝐧𝐭 💎

📷 c.1933 — IMS
📷 RO&S - Do mesmo ponto de vista no século XXI

Há alguns dias, numa Quarta Aérea RO&S, mostramos o Hipódromo da Gávea e toda a belíssima região.

Hoje vemos a frente de sua monumental entrada, na Praça Santos Dumont.

O turfe já tinha uma longa história no Rio quando o novo hipódromo, na dita Gávea, foi construído.

As corridas haviam passado por diferentes prados da cidade e, no início do século XX, os dois grandes centros eram o Prado Fluminense, do Jockey Club, em São Francisco Xavier, e o hipódromo do Derby Club, na área onde mais tarde seria construído o Maracanã.

A mudança para a Zona Sul parte do acerto para a permuta de terrenos entre a Prefeitura e o Jockey Club. O novo hipódromo foi inaugurado em 1926, substituindo o antigo Prado Fluminense.

Em 1932, a fusão do Jockey Club com o Derby Club deu origem ao Jockey Club Brasileiro.

O registro foi feito apenas cerca de sete anos depois da inauguração do hipódromo e praticamente no nascimento do Jockey Club Brasileiro, o que provavelmente é o motivo do registro.

Na imagem aparecem duas das construções monumentais. A Praça Santos Dumont ainda funcionava como uma grande área aberta diante da entrada do hipódromo — e estava tomada por automóveis, um detalhe que mostra a dimensão que as corridas de cavalo já tinham adquirido na vida carioca.

O Hipódromo da Gávea completou 100 anos em 2026 e permanece um ícone da cidade.

Abraço carioca!

(.rj)

Endereço

Rio De Janeiro, RJ

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