04/09/2026
Um dos episódios mais emblemáticos de violência policial da história de Porto Alegre ficou conhecido como “O caso do homem errado”. Em 14 de maio de 1987, a Brigada Militar foi acionada após o assalto a um supermercado. Ao chegarem ao local, encontraram um homem negro, no chão, cercado por pessoas que observavam o acontecimento. O homem era Júlio César de Melo Pinto que, em meio à confusão, sofreu um ataque epilético. Os policiais presumiram que ele fosse um dos assaltantes e o deteram, apesar de ele ter afirmado ser inocente. A cena foi registrada pelo fotojornalista Ronaldo Bernardi, que seguiu até o Hospital de Pronto Socorro para continuar acompanhando a ação. A viatura que levava o operário e um dos assaltantes desviou da rota, seguindo até o local onde ambos foram executados a tiros. Bernardi registrou a chegada de Júlio ao HPS, já morto. Na manhã seguinte, a matéria foi publicada na Zero Hora, com as fotos que retratavam Júlio com poucos ferimentos dentro da viatura e, nos registros seguintes, morto sobre uma maca. Essas fotos foram fundamentais para provar a inocência de Júlio. A Justiça condenou oito militares envolvidos na execução, sendo que todos foram expulsos da corporação. O caso repercutiu nacionalmente e escancarou o preconceito imbricado na relação entre policiais e civis: “Este episódio alerta para a ideologia que preside a ação policial [...]: neste país, ser pobre ou preto, é presunção de criminoso. A PM extrapola suas atribuições. Ela prende, julga e mata”, denunciou Jair Krischke, fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, durante o velório de Júlio César.
Em 2017, a cineasta Camila de Moraes lançou o documentário “O Caso do Homem Errado”, mostrando como o episódio trouxe à tona a questão da violência policial e do racismo estrutural presente nas instituições de segurança, e como isso ainda segue ocorrendo.
O conjunto de 10 fotografias de Ronaldo Bernardi estão, agora, digitalizadas e disponíveis para pesquisa na Fototeca Sioma Breitman.
Imagens 1 e 2: Ronaldo Bernardi. O caso do homem errado. Acervo do MJJF 8857f e 8853f.
Audiodescrição imagem 1: Fotografia horizontal em preto e branco. Na rua, à noite, uma viatura estacionada e, ao lado, um grupo de pessoas e 2 policiais militares. Dentro do Fusca, nos bancos do motorista e do carona, 2 policiais de farda e boné. Atrás, Júlio, homem negro, de cabelos crespos e curtos, está com a boca ensanguentada. Sentado ao seu lado, outro homem. Na porta da direita, o símbolo da Brigada Militar, o número “285” e, abaixo, “Fone 190”. De cada lado do veículo, um brigadiano de pé. À esquerda, uma aglomeração de pessoas observa.
Audiodescrição imagem 2: Fotografia horizontal em preto e branco. Pela janela, vê-se dentro da viatura um policial militar e um homem negro. O PM está sentado no banco do carona, de farda e boné. Atrás, Júlio está com a boca ensanguentada e a roupa clara com respingos de sangue.
Referências:
CONHEÇA o episódio policial conhecido como “O Caso do Homem Errado”. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, 2023. Disponível em: https://www.trt4.jus.br/portais/trt4/modulos/noticias/547660.
SEPULTAMENTO motivou momentos de protesto. Jornal Zero Hora. Porto Alegre 19 mai 1987. Caderno ZH Polícia.
SOUZA, Edileuza Penha de. “O caso do homem errado” - o cinema como instrumento de denúncias do genocídio da população negra. AVANCA | CINEMA 2020, Avanca, Portugal, n. 11, p. 531-536, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.37390/avancacinema.2020.a158.