12/08/2026
Nossos artistas nos ajudam a entender o mundo, a habitá-lo, a resistir, a achar o belo e o bom, a achar o que nos acalma. Por isso acho que os museus de arte deveriam ser gratuitos. Na falta de pão, arte. Mas é preciso ter fome de pão e ter fome de arte. [...] Sinto saudade da coisa material: toque. Sinto falta do abraço, da olhada, do sorriso. A palavra é importantíssima, nos manteve, mas somos seres de cinco sentidos: gosto, audição, tato, visão, cheiro. Isso só se dá pelo contato físico. Pelos cantos, pelas metades. Vivos, mas bem empobrecidos. Salvemos a ciência e a arte. [...] podemos publicar nossa dor e chamar outros. Também acho que nos constranger deve nos ensinar a constranger [...]
Rosangela Amaral de Almeida enviou suas crônicas escritas durante a pandemia de covid-19 para o projeto Testemunhos da Pandemia, realizado pelo Museu das Memórias (𝘐𝘯)Possíveis em parceria com o coletivo Testemunhos da Pandemia. Rosangela escreveu de março de 2020 a dezembro de 2021. Seu relato é profundo, difícil, verdadeiro. Nos lembra a dureza, a tristeza, a incompreensão do mundo naquele período especialmente difícil no Brasil por estarmos sob o poder de um governo genocida. Estes registros da Rosangela chegam até nós como uma ampulheta viva, onde cada grão de areia guarda um registro de memória deste tempo traumático. Um diário que faz pensar na obstinação de algumas performances artísticas que tentam capturar a passagem do tempo com o instrumento mais precioso que temos em nossas mãos: a linguagem. Um arquivo vivo dando forma a tantas dores mas também mostrando as estratégias que foi preciso inventar para sobreviver a tudo isto.
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