10/09/2026
Walter Benjamin, há quase 100 anos, já mostrava o risco de se trocar a experiência pela opinião. Nunca se opinou tanto, mas, também, nunca vi tanta gente tão empobrecida de experiência. É uma das explicações para essa barbaridade de contradições, onde cabe na mesma sentença, como significantes semelhantes, liberdade, tortura, patriotismo, privatização, ditadura, direito, expressão, censura. […] Deveríamos ensinar as crianças, desde cedo, a falar, cantar, inventar histórias, pensar com autonomia, achar argumentos consistentes, resistentes, a ter amor pelo coletivo. Assim seríamos menos violentos. […] Eu sabia que seria muito ruim e tem sido ainda pior do que imaginei. Aqui, na emergência, palavras, medicações, contenções têm importância de trazer futuro, de cessar a agressividade (auto e hétero) e achar um tempo. Tempo para falar, para a medicação operar, tempo para a família se reorganizar. Tempo para esperança de melhora e cura. Tempo para futuro.
Rosangela Amaral de Almeida enviou suas crônicas escritas durante a pandemia de covid-19 para o projeto Testemunhos da Pandemia, realizado pelo Museu das Memórias (𝘐𝘯)Possíveis em parceria com o coletivo Testemunhos da Pandemia. Rosangela escreveu de março de 2020 a dezembro de 2021. Seu relato é profundo, difícil, verdadeiro. Nos lembra a dureza, a tristeza, a incompreensão do mundo naquele período especialmente difícil no Brasil por estarmos sob o poder de um governo genocida. Estes registros da Rosangela chegam até nós como uma ampulheta viva, onde cada grão de areia guarda um registro de memória deste tempo traumático. Um diário que faz pensar na obstinação de algumas performances artísticas que tentam capturar a passagem do tempo com o instrumento mais precioso que temos em nossas mãos: a linguagem. Um arquivo vivo dando forma a tantas dores mas também mostrando as estratégias que foi preciso inventar para sobreviver a tudo isto.
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