02/07/2026
11.Diário de uma pintura
Surpreender
O que foi que eu fiz? Pintei, ué!
Em 2009 mais ou menos, meu marido me pediu:
“Pinte um D. Quixote, subindo no teclado e atingindo uma tela de computador, acho que vai f**ar impactante, vai f**ar atual.”
Eu gostei do D. Quixote no teclado, então a ideia dele me pegou, e já me apaixonei pela imagem que vi em minha cabeça. Quando terminei, e foi bem rápido, tenho umas imagens que tenho que escolher técnicas rápidas, non finito, e f**am bem nesse contexto de meio inacabadas. No decorrer me lembrei de um texto que tinha escrito há uns anos, e que praticamente casou com a imagem, então escrevi na pintura.
Mostrei para Caio. E, e, e, e?
Ele: “Não foi bem assim que imaginei, eu tinha pensado numa...”
Eu: “meu querido, pare já! Pegue as minhas tintas, tela, e faça o seu! A minha ideia, eu traduzi como senti quando você me pediu, e é esta, que agora não é mais sua, é minha, não vou te dar por que você não gostou.”
Não pinto para impactar ninguém, pois eu, antes de tudo é quem sou impactada pela ideia, e com minhas percepções ruminadas e digeridas, ou não, vou traduzir para o meu trabalho; não me preocupo com o outro, pois o trabalho vai falar para quem se abrir para ouvi-lo e isso não é controlado por mim ou pelo outro. E daí concluí: “pena que você não ouviu, não entrou na sintonia da pintura, nada posso fazer, a não ser, f**ar com ela para mim.”
Depois de uns anos, meu filho me disse: “um dos quadros seus de que mais gosto é esse D. Quixote, se você quiser me dar um quadro, quero este.” Na mesma hora dei a ele. Depois, Caio também ficou gostando e hoje, a pintura é dos dois.
Tenho um princípio: Se a pessoa se encontrou naquele quadro, de alguma maneira a pintura fez parte dela, e daí por essa sinergia, eu posso vender ou presenteá-la; mas se isso não acontece, f**a difícil para mim. Como disse ninguém é obrigado a gostar e nem se obrigar a ter. Quando não teve esse encontro, eu não me sinto confortável em me desprender daquele quadro; e isso é sentido, dentro de mim, no feed back que vi na pessoa.
Hoje olhando o D. Quixote, pude refletir sobre ele:
Um espectro de velho montado em seu cavalo irritado de subir escadas de teclado, todo torto, com seu escudo e lança ao atingir um micro, desenquadrado da tela, ele me diz sobre as dificuldades do homem frente a um mundo inóspito e violento tentando se adaptar e resolver-se nessa adversidade de uma luta constante, tentando superá-la. O desenquadramento mostra o desajuste humano, frente a tanta informação e mentiras mundanas que tanto querem nos impor. Ninguém é ajustado perfeitamente, temos todos inúmeras dificuldades durante a vida. E ao atingir o que lhe parece estranho, e causa medo, e nesse medo acabamos as vezes por atingir a nós mesmos. Somos tranquilizados de nossas imperfeições dessa luta insana na Misericórdia de Deus, embora as vezes nem percebamos quanto necessitamos desse Colo Divino de Amor. O homem permanecerá de pé quando estiver na humildade de reconhecer que Deus deve estar em primeiro lugar na sua vida.
Conversas Quixotescas
sou Quixote:
Consumição
tem a consumir-me,
um fio, chama
corre - pavio,
assim,
é.
Perdeu-se a ideia,
a rima, o instante,
na consumição
que queima de pé.
sou Sancho:
Varei fronteira interior,
e ao sabor da doideira, voltei.
Rodo a mente
que se faz em eco,
não sei quão grande
ou solitária é,
e todos em turbilhão sequente,
vislumbrarão o que f**ar de pé.
sou Dulcinéia:
Mirei a linha do horizonte,
queria chegar lá, pensei
-horizonte longe.
Vou trazer a linha
até os meus pés.
Nancy R M Carpi
D. Quixote – 2009
A/s/tela -1,10x0.90m
Nancy R M Carpi