26/07/2026
O Legado da Fazenda Mocó: Pioneirismo, Ciência e a Nova Realidade no Campo Baiano
A história da pecuária na Bahia está profundamente ligada à trajetória da Fazenda Cruzeiro do Mocó, localizada no distrito de Maria Quitéria, na região de Feira de Santana. Originalmente pertencente ao senhor José Carlos de Almeida, a propriedade passou por divisões de terras entre herdeiros e nomes proeminentes da região, como Agostinho Froes da Mota. Contudo, a sua sede e a parte principal ficaram sob o comando de Tertuliano Almeida, neto do senhor José Carlos, consolidando um dos capítulos mais inovadores do agronegócio baiano.
O Pioneirismo Genético de Tertuliano e Jairo Almeida:
Com uma visão de vanguarda que remonta a quase um século, Tertuliano Almeida — que também foi um grande produtor na região de Mundo Novo proprietário de 9 fazendas — utilizou a Fazenda Mocó como um centro estratégico. Dali, ele abastecia os currais e mercados de Feira de Santana e Salvador com grandes boiadas destinadas à produção de carne. O salto tecnológico definitivo ocorreu com o seu filho, Jairo Almeida. Ele foi o grande responsável por introduzir na região em 1917 as raças bovinas que revolucionaram a pecuária local, tais como: Zebu, Guzerá, Caracu e Indubrasil. E 1922 já estava vendendo as raças.
O foco da fazenda concentrava-se no apuramento genético e na avaliação zootécnica. Essa dedicação transformou a propriedade em um referencial de suporte para criadores de todo o estado.
A Fase Estatal: O Campo Experimental
Em 1938/1939, diante da importância estratégica da propriedade, o então interventor federal na Bahia, Landulfo Alves, adquiriu a Fazenda Mocó para o Estado. A partir dali, a área passou a abrigar uma Estação Experimental, posteriormente gerida pela extinta Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA).
Sob o controle estatal, a fazenda manteve sua vocação científica e ganhou projeção nacional: Desenvolveu projetos de melhoramento genético de caprinos e ovinos.Tornou-se um centro de excelência internacional no aprimoramento e preservação do jumento da raça Pêga.
Sediou o Centro de Formação de Agricultores Familiares (CENTREPEC), capacitando produtores do Portal do Sertão.
Atualidade: O Acampamento e Assentamento Estrela Vive -
O destino da Fazenda Mocó mudou drasticamente em maio de 2009, quando uma área de aproximadamente 582 hectares foi ocupada por famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que contestavam a ociosidade de trechos da fazenda estatal.
Hoje, a realidade da antiga fazenda de elite e campo de pesquisas se transformou: A área abriga a comunidade e pré-assentamento Estrela Vive, onde residem mais de 160 famílias. O foco produtivo mudou da pecuária de grande porte para a agricultura familiar orgânica. Projetos governamentais recentes, como o Viva Horta e o Candeeiros da Caatinga, fortalecem a produção local de alimentos (como milho crioulo e hortaliças) destinados a programas de merenda escolar e geração de renda. O local recebe periodicamente ações socio assistenciais e de saúde do município de Feira de Santana para atender à população assentada.
Resgatar a memória da Fazenda Mocó é compreender a evolução da própria Bahia: desde a era dos grandes coronéis, pecuaristas e cientistas do século XX até as transformações sociais e a consolidação da agricultura familiar no século XXI.
Pesquisa em elaborada por Eratóstenes Macedo.
Consultas no arquivo do Memorialista Adelson Mota.