20/06/2026
A NOSSA PRAÇA É UM CHÃO FEITO DE MEMÓRIAS
A Praça é nossa! Nos unimos a ela por milhares de laços memorativos. Porém, precisamos entender que o tempo evolui, trazendo novas necessidades aos lugares de uso comum da comunidade. E ainda que essas mudanças — como as que vêm sendo realizadas na atualidade — tragam novos elementos de embelezamento e de utilização da área, espera-se que a história do local seja respeitada, em busca de manter vivas as realizações passadas, tão significativas para nossos habitantes.
Temos, nesse momento, a primeira grande revitalização da Praça Central Nossa Senhora D’Abadia já em andamento, após 68 anos de sua inauguração. Para além da restauração do piso, dos jardins e do coreto, a nova obra trará novos equipamentos decorativos e uma nova forma de utilização da área. Prevista para ser entregue em setembro de 2026, a praça passará a contar com espelho d’água luminoso, playground infantil, estacionamento, calçadão, nova iluminação em sistema de LEDs, novo paisagismo e abertura de novos jardins.
Trata-se de uma mudança significativa e profunda, que visionou uma grande evolução, mas cuidou de preservar as mais importantes características oriundas do nosso passado. Tudo o que lá estava vai permanecer, e o que for novo demorará o tempo necessário para ser assimilado em sua totalidade. Que seja uma reforma que, ao final, surpreenda a todos e consiga reparar os muitos anos de abandono do nosso espaço central.
De 1895 a 1910, quando o vilarejo era conhecido como “Villa dos Crystaes”, a presença de uma capela construída no topo da colina mais alta da Fazenda Belo Horizonte (a 996 metros acima do nível do mar) deu origem à abertura de uma extensão de área para as atividades religiosas e sociais da comunidade. É nesse momento histórico que surge o espaço de terra batida com 6.400 m², que passaria a ser utilizado como local de eventos e encontros entre moradores locais, da zona rural, da cidade-sede (Franca) e de toda a região.
Em 28 de julho de 1910, a “Villa dos Crystaes” ganha foros de “Districto”. Nesse mesmo ano, ocorre o início do importante Projeto de Urbanização planejado para a área urbana do recém-criado distrito, cujos trabalhos foram realizados pelo Engenheiro Agrônomo Dr. Luiz Rodrigues Nunes. O mapeamento, realizado a pedido do proprietário das terras, Alexandre Villela de Andrade, foi finalizado em 1912. O resultado foi a abertura de três avenidas horizontais e nove ruas transversais. Além de várias áreas públicas doadas ao município de Franca (ruas, praças e escola), surgiram 247 lotes que seriam comercializados pelo proprietário, dando início à urbanização do novo distrito, onde despontaram várias unidades residenciais e comerciais.
O planejamento urbano realizado reafirmou a permanência da praça como a região central da comunidade local. Isso garantiu a sua continuidade e a determinação em ser, oficialmente, a Praça Central do Distrito, seguindo sua tradição de uso. Em 1916, a antiga capela existente no local recebeu sua primeira grande reforma e ganhou sua torre principal, sendo assim elevada à condição de Igreja. Em 1926, Nossa Senhora D’Abadia recebeu a homenagem de se tornar a padroeira local. A Praça Central também homenageou a padroeira e ambos os espaços seguiram com a mesma nomenclatura.
Já em 1943, tendo em seu entorno a existência de várias unidades residenciais e comerciais, a área foi contemplada com a construção de um pequeno coreto feito de madeira na lateral esquerda da Igreja. Esse equipamento marcaria sua funcionalidade de forma definitiva, seguindo uma tendência da época para a urbanização de praças. O coreto se tornou uma peça marcante até os dias atuais, embora tenha sido substituído, posteriormente, por outro em alvenaria construído no centro da praça.
A Praça Central Nossa Senhora D’Abadia iniciou sua urbanização estruturada com a construção dos canteiros para jardinagens ornamentais e arborização. Esse início foi entregue pelo Prefeito de Franca, Onofre Gosuen, em fevereiro de 1958, quando a localidade figurava ainda como Distrito de Franca — a apenas dez meses de receber sua Emancipação Política e Administrativa, ocorrida em 31 de dezembro de 1958.
Porém, somente em 1966 toda a área, até então de terra batida, recebeu o assentamento do piso em Petit Pavê (Piso Português), considerado artístico e cuja técnica tem origem oficial no Castelo de São Jorge (Lisboa/Portugal), em 1842. Apesar de ser uma técnica portuguesa, é uma criação inspirada nos antigos mosaicos romanos do Império Romano. Em 1968, chegou a instalação da iluminação elétrica em toda a área. Ambos os trabalhos finais foram realizados pela Gestão 1964/1968, executada pelo Prefeito Augusto José Monteiro, totalizando a finalização da urbanização da praça após 10 anos de seu início.
Em agosto de 1999 (Gestão 1997/2000 – Roberto Aurélio Leonardo), a praça recebeu da Administração Municipal sua primeira restauração, abrangendo todo o seu piso de Petit Pavê (já bastante danificado), totalmente ajustado contra os desgastes do tempo, além de receber um novo paisagismo nos jardins.
E, após toda essa contextualização, voltamos à reforma atual. Esta é a segunda grande intervenção realizada após 68 anos do início da urbanização da área que foi, e continuará sendo, o ponto de encontro de famílias, da juventude, palco de festas, apresentações musicais, namoros, convivência de amigos, das brincadeiras das crianças e das atividades de várias religiões. Ou seja: o lugar onde todos se encontram.
No mais, que se registre em nossa História que por longos anos os trabalhos de manutenção da praça central estiveram em pleno abandono. A população espera que essas modificações atuais sejam um marco do retorno aos cuidados necessários com o local, cuidados que agora serão ampliados por novos equipamentos.
Quando se trata de realizar modificações e melhorias na Praça Central, no nosso principal cartão-postal, nunca será fácil a obtenção de concordância com o todo coletivo ou político. Não se pode esperar que todos concordem integralmente com tudo. Mas é preciso aceitar que consertar o que já estava bastante estragado é uma nobre atitude. Espera-se da atual Administração do Município que a mesma ganhe metodologia e rotina na manutenção das áreas públicas, para que nossa cidade não sofra com o mesmo abandono herdado. E que cada morador possa continuar construindo nela suas melhores memórias.