19/09/2026
MEMÓRIAS BIBLIOTECÁRIAS
Mindelo e seus leitores
5.151 leitores numa biblioteca em 1932
Há dados estatísticos que, quase um século depois, continuam a contar histórias.
Um pequeno recorte de imprensa de 1932, que hoje recuperamos para a memória da nossa cidade, traz-nos um desses números.
Sob o título “Biblioteca Municipal”, lê-se:
“O número de leitores da Biblioteca Municipal do Mindelo, durante o ano de 1932, foi de 5.151.”
O mesmo texto acrescenta que esse teria sido o maior movimento anual de leitores desde a fundação da instituição e informa que, em 31 de dezembro de 1932, a Biblioteca possuía 3.925 volumes.
Cinco mil cento e cinquenta e um leitores.
Para o Mindelo daquele tempo, é um número que merece ser guardado.
Não sabemos, apenas a partir deste recorte, se os 5.151 correspondem a leitores individuais ou a registos de frequência. Por isso, não devemos transformar o número diretamente em “5.151 pessoas”. Mas o documento deixa uma coisa clara: a Biblioteca Municipal tinha uma procura significativa e fazia parte da vida cultural do Mindelo.
Uma biblioteca numa cidade que lia
A história da Biblioteca Municipal do Mindelo é anterior a 1932 e remonta às últimas décadas do século XIX.
As fontes históricas não são absolutamente coincidentes quanto à data exata da sua criação. Alguns investigadores, registam a fundação em 1882, por iniciativa do então presidente da Câmara, Augusto da Silva Pinto Ferro. Outras referências apontam para 1880.
A diferença de datas merece investigação documental, mas não altera o essencial: Mindelo teve uma biblioteca pública desde o século XIX, numa época em que a cidade começava a afirmar-se como um dos grandes centros urbanos, portuários e culturais de Cabo Verde.
E a Biblioteca não nasceu sozinha.
Em 1888, surgiu a Sociedade Recreativa Fraternidade; em 1889, a Sociedade Filarmónica de Artistas Mindelenses; e, em 1894, o Clube Luso-Britânico. Em 1899, seria publicada no Mindelo a Revista de Cabo Verde, importante publicação cultural e literária.
Era um Mindelo onde, além de mercadorias e navios, circulavam jornais, revistas, livros, música e ideias.
Uma nova geração, onde o ensino veio reforçar essa dinâmica.
Em 1917, abriu no Mindelo o liceu, inicialmente com 31 alunos. Duas décadas depois, em 1936, já estavam matriculados 366 alunos, numa população de São Vicente que rondava os 15 mil habitantes.
O liceu tornou-se um importante espaço de formação de estudantes vindos de diferentes ilhas e contribuiu de forma decisiva para a afirmação cultural do Mindelo.
É neste ambiente que devemos olhar para o número registado pela Biblioteca em 1932.
5.151 leitores.
Não como prova de que milhares de pessoas alfabetizadas frequentavam diariamente a biblioteca, mas como o sinal vibrante de uma vida leitora que já tinha forte expressão na cidade.
E havia uma realidade bem diferente
Porque o Mindelo de 1932 também era uma cidade de grandes contrastes.
Os dados estatísticos daquele ano apontam para uma população de 13.097 habitantes em São Vicente e indicam que 78% da população era considerada analfabeta ou semi-analfabeta.
É precisamente esta realidade que torna o documento da Biblioteca ainda mais fascinante.
De um lado, uma população maioritariamente afastada da leitura formal. Do outro, uma cidade que possuía biblioteca pública, liceu, imprensa, associações culturais e uma comunidade de leitores suficientemente ativa para registar 5.151 leitores num único ano.
O Mindelo era, portanto, uma cidade de contrastes: uma população com elevados níveis de analfabetismo e, simultaneamente, uma elite e uma comunidade escolar e urbana fortemente ligadas aos livros e à cultura escrita.
3.925 volumes
Há outro número no pequeno recorte que não pode ser esquecido:
3.925 volumes em 31 de dezembro de 1932.
Quase quatro mil livros numa biblioteca municipal de uma cidade de pouco mais de 13 mil habitantes.
Que livros eram esses?
Que autores estavam nas estantes?
Que obras eram mais procuradas?
Quem eram os leitores?
Quantos eram estudantes? Quantos eram funcionários, professores, comerciantes ou outros profissionais?
E quantas mulheres entravam na Biblioteca?
O recorte não responde.
Mas deixa-nos as perguntas.
E talvez os antigos catálogos, livros de registo, atas municipais e jornais da época ainda possam responder a algumas delas.
A Biblioteca também fazia parte da cidade que se modernizava.
Há ainda uma coincidência cronológica curiosa.
Durante a década de 1930, a Câmara Municipal promoveu várias obras de modernização urbana. Entre elas estiveram as obras da Biblioteca Municipal, em 1931, incluindo a alteração da sua fachada.
Um ano depois, encontramos o registo de 5.151 leitores.
Não temos elementos suficientes para afirmar que as obras tenham provocado um aumento direto da frequência. Mas os dois factos pertencem ao mesmo momento da história urbana do Mindelo.
1931 — Obras na Biblioteca Municipal.
1932 — 5.151 leitores e 3.925 volumes.
A cidade mudava.
E os seus espaços de cultura também.
Gente do Mindelo, gente de leituras
Quando pensamos no Mindelo antigo, lembramo-nos naturalmente do Porto Grande, dos navios, dos carvoeiros, dos estivadores, do comércio, dos cafés, dos cinemas, da música e das ruas
Mas havia também outro Mindelo.
O Mindelo dos livros.
O Mindelo dos estudantes.
O Mindelo dos jornais e das revistas.
O Mindelo das sociedades recreativas.
O Mindelo daqueles que entravam numa biblioteca à procura de uma história, de uma informação, de um poema, de uma resposta ou simplesmente de uma viagem através das páginas de um livro.
E em 1932, um pequeno recorte de jornal deixou-nos uma fotografia rara desse Mindelo:
5.151 leitores.
3.925 volumes.
Dois números que atravessaram quase um século para nos lembrar que a história da nossa cidade também se escreveu entre páginas, estantes e leitores.
Porque o Mindelo não era apenas uma cidade que recebia navios. Era também uma cidade que recebia ideias. E havia gente que as procurava nos livros.
Gente do Mindelo, gente de leituras.
NOTA HISTÓRICA
O recorte que serve de base a esta publicação indica 1916 como data de fundação da Biblioteca. No entanto, a bibliografia consultada apresenta datas anteriores, sobretudo 1880 e 1882, para a sua criação.
Por uma questão de rigor histórico, não fixamos 1916 como data de fundação. A discrepância poderá corresponder a uma reorganização, transferência, reabertura ou outra fase da instituição, mas isso exige confirmação documental.
Esta é, aliás, uma excelente pista para uma futura investigação de Memórias d’Mindel.
Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.
Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)
Foto: Praia de Bote
FONTES E REFERÊNCIAS
Fonte primária
Recorte de imprensa de 1932, intitulado “Biblioteca Municipal”, reproduzido nesta publicação. Regista 5.151 leitores durante o ano de 1932 e 3.925 volumes em 31 de dezembro.
Referências históricas e bibliográficas
Brito-Semedo, Manuel. A Construção da Identidade Nacional — Análise da Imprensa entre 1877 e 1975. A obra regista a criação da Biblioteca Municipal de São Vicente em 1882 e enquadra o desenvolvimento cultural do Mindelo no final do século XIX.
Swolkien, Dominika. Factores Sociolinguísticos no Povoamento da Ilha de São Vicente de Cabo Verde. ACBLPE, 2003. Inclui dados estatísticos relativos a 1932, população de São Vicente e situação educacional da época.
HPIP — Património de Influência Portuguesa. Informação sobre a evolução urbana do Mindelo e as obras da Biblioteca Municipal na Rua de São João em 1931.
Biblioteca Nacional de Cabo Verde. Referências históricas sobre as primeiras bibliotecas públicas do arquipélago, incluindo a Biblioteca Municipal do Mindelo, datada de 1880.
Turismo de Cabo Verde. Informação patrimonial sobre o atual conjunto arquitetónico da Biblioteca Municipal e Alliance Française do Mindelo.
Fontes primárias que merecem consulta numa investigação posterior: Boletim Oficial da Província de Cabo Verde, Atas da Câmara Municipal de São Vicente, imprensa periódica mindelense, catálogos e livros de registo da Biblioteca Municipal e documentação do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde.