Memórias D'Mindel

Memórias D'Mindel "A ideia de progresso está cada vez mais obsoleta e o passado tem invadido a nossa consciência". Para manter sempre viva a MEMÓRIA desta ilha.
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A memória surge, assim, como um artifício para proteger o passado contra a acção corrosiva do tempo. Um povo que não preocupa em preservar sua memória perde-se na história e se aniquila a curto prazo, na sua cultura. (Paulo José de Oliveira - Pajo)

Memória é a capacidade humana de reter fatos e experiências do passado e retransmití-los às novas gerações através de diferentes suportes empíricos (v

oz, música, imagem, textos, etc.). Existe uma memória individual que é aquela guardada por um indivíduo e se refere as suas próprias vivências e experiências, mas que contém também aspectos da memória do grupo social onde ele se formou, isto é, onde esse indivíduo foi socializado. Há também aquilo que denominamos de memória colectiva que é aquela formada pelos factos e aspectos julgados relevantes e que são guardados como memória oficial da sociedade. Ela geralmente se expressa naquilo que chamamos de lugares da memória que são os monumentos, hinos oficiais, quadros e obras literárias e artísticas que expressam a versão consolidada de um passado colectivo de uma dada sociedade. Esse mergulhar conjunto e compartilhado no passado nos faz emergir mais conscientes quanto aos problemas contemporâneos da vida da comunidade estudada e geralmente nos conduz naturalmente a acções conjuntas e politicamente conscientes visando sua superação. Esta página tem por objectivo trazer de volta, através de um levantamento cuidado, os factos, as estórias, a história e as memórias de Mindelo - São Vicente.

MEMÓRIAS COMERCIAISA antiga Casa Gaspar — um “bijou” no MindeloHá lugares que não são apenas edifícios.São lugares de me...
19/08/2026

MEMÓRIAS COMERCIAIS
A antiga Casa Gaspar — um “bijou” no Mindelo

Há lugares que não são apenas edifícios.
São lugares de memória, onde se cruzaram pessoas, profissões, famílias e histórias que ajudaram a construir a identidade do Mindelo.

Na Rua da Luz, junto à Igreja de Nossa Senhora da Luz, existiu durante décadas uma dessas referências: a "Casa Gaspar".

O edifício é anterior à própria loja. A sua origem remonta ao final do século XIX, integrando o antigo tecido urbano do Mindelo. Mas foi sobretudo a partir da presença do Sr. Gaspar que esta casa ganhou uma nova vida na memória dos mindelenses.

O Sr. Gaspar era ex-militar — segundo testemunhos, teria sido furriel ou segundo-sargento. Depois da desmobilização, adquiriu o edifício e, com a sua esposa D. Laura, lançou-se numa verdadeira obra de recuperação.

Trabalharam duramente para transformar a velha casa.

E conseguiram.

Quem conheceu o resultado descreveu-o como um verdadeiro “bijou”.

Ali funcionou uma daquelas lojas que parecem pertencer a outra época: um espaço onde se podia encontrar quase de tudo — artigos para bicicletas, ferragens, botões, materiais de costura, brinquedos, pequenos utensílios e tantos outros objectos difíceis de encontrar noutros lugares.

Era uma loja, mas era também um ponto de encontro com o quotidiano do Mindelo.

Para muitas crianças, a "Casa Gaspar" ficou associada aos brinquedos e às compras de Natal. E, em Dezembro, não faltavam os famosos petardos (bombinha" ou foguete no Natal) que faziam parte das brincadeiras de uma geração.

A Casa Gaspar foi também uma pequena "escola de comércio".

Foi ali que começou, ainda jovem, o já falecido Zeferine Cid, que mais tarde se tornaria outro conhecido comerciante do Mindelo. Segundo testemunho da sua filha, Zeferine manteve uma relação de grande proximidade com o Sr. Gaspar, a quem considerava como uma espécie de pai.

E talvez seja precisamente isso que torna esta história tão especial.

Por trás do balcão não estava apenas um comerciante. Estava um homem que, depois da vida militar, encontrou no Mindelo o lugar onde construir uma nova vida.

Segundo testemunhos de antigos mindelenses, o Sr. Gaspar terá ainda desempenhado um papel político na campanha do General Humberto Delgado, nas eleições presidenciais de 1958, em São Vicente. Esta informação permanece, contudo, dependente de confirmação documental e deve ser entendida como "memória oral da época".

Hoje, a Casa Gaspar pertence ao passado.

Mas as suas paredes, as fotografias e sobretudo as lembranças de quem ali entrou continuam a contar uma história.

A história de uma casa. A história de uma loja.

E, sobretudo, a história de um homem que ajudou a dar-lhe alma.

Porque no Mindelo há lugares que desaparecem da paisagem, mas nunca desaparecem da memória.

Casa Gaspar — uma pequena casa, uma grande memória do Mindelo.

Localização: Rua da Luz — Mindelo

Pesquisa e Contexto Histórico
Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)

Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Foto: Cronista Joaquim Saial - 1999

Nota histórica: a identif**ação completa do Sr. Gaspar, bem como a confirmação documental da sua carreira militar, da patente e do seu eventual papel como mandatário da candidatura de Humberto Delgado, continuam em investigação.

Nota: A história do Sr. Gaspar é reconstruída a partir de fontes patrimoniais, bibliográf**as e, sobretudo, de testemunhos de memória oral de antigos mindelenses. A sua identif**ação completa, a patente militar e a eventual condição de mandatário da candidatura de Humberto Delgado permanecem em investigação documental.

Fontes de memória e testemunhos

Pereira, Valdemar — testemunho publicado em Praia de Bote, no artigo “A antiga Casa Gaspar, no Mindelo”, 25 de março de 2014. Fonte principal para as informações sobre o Sr. Gaspar, a sua condição de ex-militar, a aquisição e recuperação do edifício, a participação da esposa e a memória da Casa Gaspar como estabelecimento comercial.

Praia de Bote — “A antiga Casa Gaspar, no Mindelo”
Fortes Lopes, José; Miranda Lima, Adriano; Mendes, A. — testemunhos e comentários reunidos no mesmo artigo do Praia de Bote, com referências à actividade comercial da Casa Gaspar, ao Sr. Gaspar e à memória da sua intervenção na campanha de Humberto Delgado, em 1958. Praia de Bote — “A antiga Casa Gaspar, no Mindelo”

Fontes patrimoniais e bibliográf**as

Castro, Wendy Santos — A valorização do património cultural da cidade do Mindelo. Dissertação de mestrado, ISCTE-IUL. Ficha patrimonial da Casa Gaspar (CV2320009), incluindo localização, caracterização arquitectónica e evolução histórica do edifício.

Repositório do ISCTE-IUL — dissertação
Martins, Valdemar — Revitalização como mecanismo de protecção do património arquitectónico: uma proposta para Mindelo. Estudo de arquitectura e património que inclui a Casa Gaspar e referências a documentação patrimonial anterior, nomeadamente levantamentos de 1984.

MEMÓRIAS URBANASMindelo em 1980 — Um novo capítulo depois da IndependênciaEsta imagem da Baía do Porto Grande, captada e...
18/08/2026

MEMÓRIAS URBANAS
Mindelo em 1980 — Um novo capítulo depois da Independência

Esta imagem da Baía do Porto Grande, captada em 1980, mostra-nos um Mindelo ainda muito reconhecível — compacto, voltado para o mar e para a sua baía — mas já a entrar numa nova etapa da sua história.

Cinco anos depois da Independência, a cidade começava a conhecer importantes transformações na sua vida económica e urbana.

Foi nesse ano que, a 12 de julho, era constituída a Agência Nacional de Viagens, E.P. — ANV, instalada num dos edifícios históricos da frente marítima do Mindelo, junto à Praça Dom Luís.

O edifício tinha uma história muito mais antiga. Construído no final do século XIX, esteve ligado às grandes companhias carvoeiras britânicas que fizeram do Porto Grande uma importante escala marítima do Atlântico. Entre elas estiveram a Cory Brothers e a Millers & Cory.

Com a Independência, o edifício passou para o Estado e, em 1980, recebeu uma nova função: a Agência Nacional de Viagens, E.P., tornando-se parte da nova estrutura económica e turística do país independente.

De certa forma, 1980 simboliza uma passagem de testemunho.

Dos escritórios das companhias estrangeiras que durante décadas acompanharam o movimento dos grandes navios no Porto Grande, para uma empresa nacional ligada às viagens e ao desenvolvimento das atividades turísticas.

E, no mesmo ano, surgia também uma nova referência na hotelaria mindelense.

Era inaugurado o Aparthotel Avenida, na Avenida 5 de Julho. Construído pela Empreitel, o empreendimento tornou-se o primeiro empreendimento privado hoteleiro do período pós-independência em São Vicente e, durante muitos anos, uma referência da hotelaria da cidade.

Mas a história da hotelaria moderna de Mindelo começara antes.

O Hotel Porto Grande, construído entre 1966 e 1968, fora inaugurado a 11 de janeiro de 1968, tornando-se o primeiro hotel de São Vicente com as características de um moderno estabelecimento hoteleiro.

Assim, quando esta fotografia foi captada, em 1980, o velho Hotel Porto Grande já fazia parte da paisagem mindelense há 12 anos, enquanto o Aparthotel Avenida representava uma nova geração de investimento hoteleiro, já no período pós-independência.

Duas épocas. Dois hotéis. Uma mesma cidade.

Nesta fotografia, porém, tudo parece ainda tranquilo.

A baía, os navios fundeados, os armazéns, as ruas e os telhados do velho Mindelo contam-nos uma história de continuidade — enquanto, quase sem darmos conta, a cidade entrava numa nova fase da sua história.

Mindelo, 1980.
Um ano de memória.
Um ano de transição.
Um novo capítulo na história da cidade.

Pesquisa e Contexto Histórico
Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)

Memórias d'Mindel — preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

📷 Foto: Baía do Porto Grande — Mindelo, 1980

#1980

11.000 Guardiões da Nossa Memória!​Mindelo não é apenas feito de betão e mar. É feito de histórias, de rostos, de lugare...
18/08/2026

11.000 Guardiões da Nossa Memória!

​Mindelo não é apenas feito de betão e mar. É feito de histórias, de rostos, de lugares e, sobretudo, das memórias de quem por aqui passou e de quem continua a carregar esta cidade no coração.

​A cada fotografia resgatada, a cada documento partilhado e a cada história redescoberta, reafirmamos o compromisso de manter viva a alma do Mindelo e preservar a memória coletiva de São Vicente.

​O Memórias d'Mindel atinge hoje a marca dos 11.000 seguidores. Este espaço nasceu com uma missão simples, mas profunda: resgatar, catalogar, divulgar e valorizar o nosso património histórico e cultural, aproximando as novas gerações das memórias que ajudaram a construir a nossa identidade.

​Porque preservar a memória coletiva não é apenas olhar para o passado, é um ato de cidadania e amor à nossa terra. ​É compreender quem somos, e deixar às gerações futuras o legado de quem fomos.

A todos os que caminham comigo nesta viagem pelo tempo, o meu mais profundo OBRIGADO!
Continuemos juntos a descobrir, recordar e preservar o nosso Mindelo.

Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)
Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

MEMÓRIAS NÁUTICASO navio «Alfredo da Silva» e o Porto GrandeHá navios que fazem parte da memória de uma cidade mesmo dep...
14/08/2026

MEMÓRIAS NÁUTICAS
O navio «Alfredo da Silva» e o Porto Grande

Há navios que fazem parte da memória de uma cidade mesmo depois de desaparecerem do horizonte. Para muitas gerações de mindelenses, o «Alfredo da Silva» foi um desses navios.

Nas décadas de 1950 e 1960, a sua silhueta escura e elegante era uma presença familiar nas águas do Porto Grande. Integrado na frota da "Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes", identif**ada pelas inconfundíveis letras “S.G." na chaminé, o navio assegurava uma das ligações marítimas regulares entre Cabo Verde, a Guiné e Lisboa.

O N/M «Alfredo da Silva», um navio misto de passageiros e carga, fazia parte da rede marítima que mantinha o arquipélago ligado à metrópole e aos territórios da África Ocidental. Na sua rota encontravam-se: Lisboa, Cabo Verde (Mindelo e Praia) e a Guiné, com o Porto Grande a desempenhar um papel fundamental nessas ligações.

E o que transportava?

Transportava pessoas e "histórias de vida".

A bordo viajavam estudantes que partiam para Lisboa, famílias que se deslocavam entre os diferentes territórios, comerciantes, funcionários, militares e passageiros em trânsito. Nos porões e espaços de carga seguiam também mercadorias, víveres, encomendas e correio, bens indispensáveis à vida quotidiana em Cabo Verde.

Para Mindelo, a chegada de um navio destes era muito mais do que um acontecimento portuário.

Era movimento no cais.
Era gente à espera.
Era o reencontro de famílias.
Eram despedidas acompanhadas de lágrimas e promessas de regresso.

O apito do navio, ecoando pela baía e pelas ruas da cidade, fazia parte da própria paisagem sonora do Mindelo. Por detrás daquele casco estavam viagens, esperanças, partidas e chegadas — momentos que f**aram gravados na memória de muitas famílias cabo-verdianas.

Construído no início da década de 1950, o «Alfredo da Silva» pertenceu a uma geração de navios que desempenhou um papel importante nas ligações marítimas portuguesas com Cabo Verde e a costa ocidental africana.

A fotografia que hoje recuperamos mostra o navio fundeado no mar, com o nome “ALFREDO DA SILVA – LISBOA – PORTUGAL” bem visível no casco e o distintivo “S.G.” na chaminé.

Hoje, o navio já não está no Porto Grande.

Mas ficou a memória.

Porque, para quem viveu aquele tempo, o «Alfredo da Silva» não era apenas um navio que chegava ou partia. Era uma ponte sobre o Atlântico.

Entre os navios que marcaram as carreiras marítimas portuguesas para África encontravam-se o Lourenço Marques, o Alfredo da Silva, o Manuel Alfredo, o Amélia de Melo, o Rita Maria e o Lobito. Entre eles, o Alfredo da Silva, o Ana Mafalda, o Rita Maria e o Manuel Alfredo constituíam uma série específ**a de quatro navios mistos de passageiros e carga da Sociedade Geral, construídos nos estaleiros da CUF, na Rocha do Conde de Óbidos.

E cada vez que o seu apito soava na baía, Mindelo sabia que mais uma história estava a começar — ou a chegar ao fim.

Partiu ou recebeu alguém a bordo? Guarda na memória (ou no álbum de família) alguma viagem ou despedida marcante a bordo do Alfredo da Silva no Porto Grande? Tem algum familiar que tenha viajado nesta linha entre Lisboa, Mindelo e Bissau?

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Pesquisa e Contexto Histórico
Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)

Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Foto: Postal Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes - Arquivo pessoal e familiar (Cedido por Carlos Rosário)

13/08/2026

MEMÓRIAS FESTIVALEIRAS| Baía das Gatas, 1987

​Festival da Baía das Gatas (1987) — Um precioso registo audiovisual que nos transporta até quase às origens de uma das maiores manifestações culturais e afetivas de São Vicente e de Cabo Verde.

​Neste arquivo de vídeo, sobressai a atmosfera única dos anos 80: o campismo livre ao longo do areal, a cumplicidade entre amigos e famílias e a moldura dos automóveis da época alinhados ao longo da estrada da Baía.

​Créditos do arquivo de vídeo: Júlio Pedro Gomes
​Local: Baía das Gatas, São Vicente
​Ano: 1987

​Um agradecimento especial a Sr. Júlio Pedro Gomes pela devida autorização e cedência para partilhar este registo. E, bem como pela preservação deste valioso património audiovisual da nossa ilha.

MEMÓRIAS PORTUÁRIAS As Alvarengas do Porto GrandeHá imagens de Mindelo que, à primeira vista, parecem mostrar apenas uma...
13/08/2026

MEMÓRIAS PORTUÁRIAS
As Alvarengas do Porto Grande

Há imagens de Mindelo que, à primeira vista, parecem mostrar apenas uma baía cheia de pequenas embarcações.

Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que estamos perante uma verdadeira cena de trabalho — o retrato de uma época em que o Porto Grande funcionava como uma das grandes portas marítimas do Atlântico.

Entre os grandes navios fundeados ao largo e a cidade, havia uma pequena frota que assegurava uma parte essencial da vida do porto: as 'Alvarengas" .

Estas embarcações, de formato retangular e a estrutura aberta de carga e, geralmente de fundo chato, evidenciam precisamente a transição entre a era do carvão/combustível e o transporte de mercadoria geral fracionada antes da era moderna.

Eram utilizadas para operações de transbordo, carga, descarga e abastecimento no Porto Grande, fazendo a ligação entre os navios fundeados na baía e as estruturas portuárias em terra.

Era assim que mercadorias, equipamentos, combustíveis e outros carregamentos chegavam ou saíam dos grandes navios.

O trabalho era feito na baía, entre o navio e o cais, num movimento constante de homens, barcos e mercadorias.

E não estamos apenas perante uma interpretação da fotografia.

O Royal Museums Greenwich / National Maritime Museum, Londres, que conserva um importante conjunto de imagens históricas do Porto Grande, identif**a expressamente, em fotografias realizadas na década de 1930, numerosas "cargo lighters" — embarcações de carga — e "oil-fuel lighters", destinadas ao serviço de combustíveis. Numa dessas imagens aparece também uma pequena alvarenga de combustível sendo rebocada por um rebocador a v***r.

Ou seja, aquilo que hoje podemos olhar como uma simples concentração de barcos na baía era, na realidade, uma engrenagem indispensável do movimento portuário de Mindelo.

O Porto Grande tinha-se afirmado desde o século XIX como um importante ponto de escala para a navegação atlântica, sobretudo com o desenvolvimento da navegação a v***r e das companhias de abastecimento de carvão. A evolução do porto esteve intimamente ligada ao próprio crescimento urbano de Mindelo.

Os grandes navios chegavam. Fundeavam.

E, enquanto os passageiros, marinheiros e comerciantes davam vida à cidade, havia uma outra atividade, menos visível, que não podia parar: a carga e descarga.

Era aí que entravam as "Alvarengas" (batelões/barcas ou lanchas).

Pequenas perante os "gigantes do mar", mas fundamentais para o funcionamento daquele mundo.

Moviam-se entre o navio e a terra, transportando aquilo que alimentava o comércio, o abastecimento e a própria atividade do Porto Grande. Elas transportavam toneladas de carvão de pedra, água potável, mantimentos e mercadorias comerciais.

Uma das fotografias que hoje partilhamos, guarda precisamente esse instante.

A baía aparece povoada por dezenas de embarcações. Ao fundo, Mindelo. Mais além, as montanhas de São Vicente.

E no meio de tudo isto, aquelas pequenas silhuetas sobre a água contam-nos uma história que durante muito tempo ficou quase invisível.

A história do trabalho portuário.

Antes dos grandes equipamentos modernos, antes dos contentores e dos cais que hoje conhecemos, o movimento do Porto Grande dependia também da força dos homens e destas pequenas embarcações que cruzavam incessantemente a baía.

As Alvarengas eram parte dessa paisagem.
Eram parte do trabalho. Eram parte do Mindelo.

A dependência destas embarcações de serviço começou a diminuir drasticamente a partir da década de 1960, com a construção e inauguração das infraestruturas modernas e dos cais acostáveis do Porto Grande. Com os navios a conseguirem atracar diretamente no cais para descarregar mercadorias e contentores, a frota de alvarengas tradicionais acabou por desaparecer da paisagem quotidiana da baía, restando hoje na rica memória fotográf**a e histórica do Mindelo — silenciosas testemunhas de um tempo em que o Porto Grande era uma verdadeira cidade sobre o mar.

Memórias d’Mindel — porque até os pequenos barcos contam grandes histórias.

Pesquisa e Contexto Histórico
Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)

Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Foto 1: Arquivo pessoal e familiar (Cedido por Carlos Rosário)

Foto 2: Arquivo / Royal Museums Greenwich, c. UK 1930s

Fontes Históricas e Bibliográf**as

•Royal Museums Greenwich / National Maritime Museum, através da Waterline Collection - Marine Photo Service 1930.

•Dissertação de Francisca Gomes Pires, O Porto Grande e a Urbe Mindelense na Aurora da Contemporaneidade (1850–1914), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

MEMÓRIAS CÓSMICAS ​Entre duas Sombras: Do Dia que Virou Noite em 1973 ao Eclipse de Ontem​Mindelo guarda no seu imaginár...
13/08/2026

MEMÓRIAS CÓSMICAS
​Entre duas Sombras: Do Dia que Virou Noite em 1973 ao Eclipse de Ontem

​Mindelo guarda no seu imaginário o histórico eclipse total de 30 de Junho de 1973 (leiam o texto na crónica da Memórias d'Mindel), um evento que marcou gerações na nossa ilha.

Cerca de 53 anos depois, ontem, 12 de Agosto, o céu de Mindelo voltou a presentear-nos com a dança entre o Sol e a Lua — desta vez num eclipse parcial, mas com a mesma magia de nos fazer erguer os olhos e contemplar o céu, renovando essa ligação mágica que Soncent tem com os mistérios do firmamento.

​Registos que f**am, memórias que se renovam...

Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)
Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Foto: Memórias d'Mindel (uso de filtro de Raio X)

MEMÓRIAS CÓSMICAS | O DIA EM QUE O SOL "DESAPARECEU" EM MINDELO ​30 de Junho de 1973 — o eclipse que mergulhou São Vicen...
11/08/2026

MEMÓRIAS CÓSMICAS | O DIA EM QUE O SOL "DESAPARECEU" EM MINDELO

30 de Junho de 1973 — o eclipse que mergulhou São Vicente na escuridão

​Nem todas as grandes histórias de uma cidade precisam de livros de História para continuar vivas. Certos momentos f**am de tal forma gravados na memória coletiva que basta ouvir quem os viveu para sentir que se esteve lá.

​30 de Junho de 1973 foi um desses dias.
​Nessa manhã, São Vicente foi palco de um fenómeno extraordinário: um eclipse solar total. Pela primeira vez em muitas gerações, muitos mindelenses puderam assistir, a partir da própria ilha, a Lua encobrir completamente o Sol.

​O eclipse começou em Mindelo por volta das 07h11. À medida que a Lua avançava diante do disco solar, a luz do dia foi diminuindo progressivamente, até que, pouco depois das oito da manhã, chegou o momento extraordinário da totalidade.

Início do Eclipse Solar Total: ~07h11 (hora local)
​Momento da Totalidade: ~08h20 – 08h24 (hora local)
​Duração da Totalidade em Mindelo: Aprox. 3 minutos e 50 segundos a 4 minutos

​Durante alguns minutos, o dia transformou-se em noite. ​O céu escureceu, a temperatura desceu e o ambiente ganhou uma aparência quase irreal. O Sol, normalmente impossível de encarar, desapareceu por trás da Lua, deixando visível apenas a sua delicada coroa luminosa.

Os cálculos astronómicos atuais colocam o máximo do eclipse em Mindelo por volta das 08h22, com cerca de quatro minutos de totalidade. Mas, para quem viveu aquele momento, talvez a hora exata seja o detalhe menos importante.

​O que ficou foi a sensação. ​A sensação de ver o dia desaparecer em plena manhã.

​Quem estava nas ruas, nas casas, nos campos ou junto à baía de Porto Grande testemunhou algo que dificilmente poderia esquecer.

Como bem recorda o leitor Filipe Brito:
"Eu assisti no terraço do Comando Naval (era da Marinha de Guerra). Lembro-me que vieram equipas de cientistas não só de Lisboa mas também doutros países para assistirem ao fenómeno natural que aqui em S.Vicente se observava a 100%! Foi realmente um momento extraordinário e irrepetível!"

Ou ainda nos conta outro leitor, Amaro Miranda: "Só visto. Nós defumamos uns pedaços de vidro com fume negro de candirim para assistirmos. Era ver pessoas idosas a gritar que era o fim do mundo. Era ver os corvos e pássaros de grande porte (posse bronk) voando desorientados. (...) Era um misto de euforia e de receio."

​Quase 53 anos depois, Cabo Verde prepara-se para assistir novamente a um eclipse solar, amanhã 12 de Agosto de 2026. Desta vez, porém, será muito diferente: em São Vicente, a Lua cobrirá apenas cerca de 35% da área do disco solar, e o fenómeno ocorrerá já perto do pôr do Sol.

​Nada comparável à escuridão de 1973.
​Mas talvez seja precisamente essa a beleza da memória: o céu muda, o tempo passa, mas aquilo que vimos permanece.

​E o Leitor, viveu o eclipse de 30 de Junho de 1973 em São Vicente? Conte-nos como foi.
​Onde estava? O que fazia naquele momento?
Lembra-se de como ficou Mindelo durante a totalidade?

​Há memórias que pertencem a uma pessoa. Outras pertencem a uma cidade inteira.

​30.06.1973 — um dia que São Vicente nunca esqueceu.

Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)

Pesquisa e Contexto Histórico: Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

MEMÓRIAS DO TEMPOA noite de 10 para 11 de agosto de 2025 ficou gravada na memória coletiva de São Vicente e do arquipéla...
11/08/2026

MEMÓRIAS DO TEMPO

A noite de 10 para 11 de agosto de 2025 ficou gravada na memória coletiva de São Vicente e do arquipélago. Em poucas horas, a força da tempestade Erin descarregou uma quantidade avassaladora de chuva, transformando as ruas de Mindelo em rios violentos e testando os limites da nossa resiliência.

​Um ano depois, marcar este aniversário não é apenas relembrar a fúria das águas e os estragos materiais; é honrar as vidas impactadas e perdidas, a solidariedade que se levantou das ruínas e a capacidade de reconstrução da nossa gente.

​Erin — 1 Ano de Tormentas: Crónica de uma tempestade que não queremos

​Há noites em que a memória se recusa a adormecer. A madrugada de 11 de agosto de 2025 foi uma dessas passagens na história do Mindelo onde o tempo pareceu suspender-se sob o peso de um céu impiedoso. A tempestade Erin não trouxe apenas chuva; trouxe a fúria desmedida de uma natureza que, em poucas horas, descarregou meses de precipitação, arrastando caminhos, inundando casas e confrontando-nos com a nossa própria vulnerabilidade.

​Para quem viveu essas horas, o som da enxurrada a descer pelas encostas e a rasgar o asfalto e a calçada das ruas, ainda ecoa com clareza. Mindelo, habituado a olhar o mar com cumplicidade, viu o perigo chegar do céu e das ribeiras transbordadas. Foram momentos de incerteza, de perdas irreparáveis e de um desgaste silencioso que não se apagou quando o sol voltou a raiar.

​No entanto, se a tormenta revelou a fragilidade das nossas encostas e canais de drenagem, revelou também a força inquebrável da nossa comunidade. Na escuridão daquela madrugada e nos dias difíceis que se seguiram, estenderam-se mãos vizinhas, limparam-se escombros a eito e partilhou-se o pouco que restava. A dor do luto e do prejuízo transformou-se numa coragem coletiva — a mesma que sempre definiu este povo diante das adversidades do Atlântico.

​Passado um ano, as marcas físicas podem ir cicatrizando devagar, mas a lição permanece. Relembrar a tempestade Erin não é alimentar a mágoa ou o medo, mas sim guardar o registo histórico da nossa memória coletiva. É um compromisso com o futuro, com a prevenção e, acima de tudo, uma homenagem sentida a todos os que enfrentaram a tempestade e ajudaram Mindelo a erguer-se de novo.

Mas é preciso ter a coragem de olhar para além dos discursos: para muitos mindelenses, a tempestade ainda não acabou. Há quem continua sem conseguir recuperar a casa que tinha, os bens acumulados com o suor de uma vida inteira, a estabilidade financeira ou até o sentido de segurança. A reconstrução material e emocional é um processo lento, doloroso e, em muitos casos, ainda longe do fim. A bonança não chega ao mesmo tempo para todos.

Relembrar a tempestade Erin no "Memórias d'Mindel" não é apenas um exercício de arquivo ou um olhar nostálgico sobre a resiliência coletiva. É um ato de solidariedade viva. É manter o foco sobre quem continua em luta, recusando o esquecimento e lembrando que a verdadeira recuperação de uma comunidade só se cumpre quando ninguém f**a para trás.

​Porque a história de uma cidade não se escreve apenas nos dias de bonança, mas na forma como atravessa as noites mais escuras e, sobretudo, na persistência de não esquecer os nossos.

Somos Soncent, a ilha que sempre ficou de pé.

Redação e Edição: Lucas Leite M. (Deluca)

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06/08/2026

MEMÓRIAS DE INFÂNCIA
TEMPO D'MENINSE NA MINDEL: Ô K' SODAD!!!

Quem se lembra do tempo em que a rua era o nosso verdadeiro parque de diversões?

Naqueles dias, não havia telemóveis, internet nem muitos videojogos. Bastavam a imaginação, a criatividade e um grupo de amigos para transformar qualquer rua, beco ou largo num mundo de aventuras.

Era o tempo do " jogo de matas", do pião, do saltar à corda, do polícia e ladrão, da mãgatxada, do futebol na rua. Ou ainda, como nos lembra o leitor François Lima: "Trinca botão, "rendz haup" (hands up), tiginha, da bolacha"... ou o "Soldado, cabo, furriel; corrida pau" que saudosamente lembra o leitor Jorge Monteiro. Outras inesquecíveis como recorda a leitora Matilde Cruz: "Jogo de uril, ringue, trouxe as cartas enfim só brincadera sabe"... e, de tantas outras brincadeiras que marcaram a infância de várias gerações de mindelenses.

Foram momentos simples que moldaram gerações, mas inesquecíveis. Momentos que fortaleceram amizades, uniram bairros e deixaram memórias que o tempo nunca conseguiu apagar no coração de cada mindelense.

Naquela época, não precisávamos de muito para ser felizes — apenas imaginação, criatividade e bons amigos ao redor.

E para si? Qual era a brincadeira que nunca podia faltar no seu dia?

Partilhe a suas memórias nos comentários. Vamos recordar juntos esse Mindelo que vive para sempre no coração de quem o conheceu.

O vídeo nos leva direto para esses tempos dourados

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