Memórias D'Mindel

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Memórias D'Mindel "A ideia de progresso está cada vez mais obsoleta e o passado tem invadido a nossa consciência". Para manter sempre viva a MEMÓRIA desta ilha.
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A memória surge, assim, como um artifício para proteger o passado contra a acção corrosiva do tempo. Um povo que não preocupa em preservar sua memória perde-se na história e se aniquila a curto prazo, na sua cultura. (Paulo José de Oliveira - Pajo)

Memória é a capacidade humana de reter fatos e experiências do passado e retransmití-los às novas gerações através de diferentes suportes empíricos (voz, música, imagem, textos, etc.). Existe uma memória individual que é aquela guardada por um indivíduo e se refere as suas próprias vivências e experiências, mas que contém também aspectos da memória do grupo social onde ele se formou, isto é, onde esse indivíduo foi socializado. Há também aquilo que denominamos de memória colectiva que é aquela formada pelos factos e aspectos julgados relevantes e que são guardados como memória oficial da sociedade. Ela geralmente se expressa naquilo que chamamos de lugares da memória que são os monumentos, hinos oficiais, quadros e obras literárias e artísticas que expressam a versão consolidada de um passado colectivo de uma dada sociedade. Esse mergulhar conjunto e compartilhado no passado nos faz emergir mais conscientes quanto aos problemas contemporâneos da vida da comunidade estudada e geralmente nos conduz naturalmente a acções conjuntas e politicamente conscientes visando sua superação. Esta página tem por objectivo trazer de volta, através de um levantamento cuidado, os factos, as estórias, a história e as memórias de Mindelo - São Vicente.

MEMÓRIAS BIBLIOTECÁRIASMindelo e seus leitores5.151 leitores numa biblioteca em 1932Há dados estatísticos que, quase um ...
19/09/2026

MEMÓRIAS BIBLIOTECÁRIAS
Mindelo e seus leitores

5.151 leitores numa biblioteca em 1932
Há dados estatísticos que, quase um século depois, continuam a contar histórias.

Um pequeno recorte de imprensa de 1932, que hoje recuperamos para a memória da nossa cidade, traz-nos um desses números.

Sob o título “Biblioteca Municipal”, lê-se:
“O número de leitores da Biblioteca Municipal do Mindelo, durante o ano de 1932, foi de 5.151.”

O mesmo texto acrescenta que esse teria sido o maior movimento anual de leitores desde a fundação da instituição e informa que, em 31 de dezembro de 1932, a Biblioteca possuía 3.925 volumes.

Cinco mil cento e cinquenta e um leitores.
Para o Mindelo daquele tempo, é um número que merece ser guardado.

Não sabemos, apenas a partir deste recorte, se os 5.151 correspondem a leitores individuais ou a registos de frequência. Por isso, não devemos transformar o número diretamente em “5.151 pessoas”. Mas o documento deixa uma coisa clara: a Biblioteca Municipal tinha uma procura significativa e fazia parte da vida cultural do Mindelo.

Uma biblioteca numa cidade que lia

A história da Biblioteca Municipal do Mindelo é anterior a 1932 e remonta às últimas décadas do século XIX.

As fontes históricas não são absolutamente coincidentes quanto à data exata da sua criação. Alguns investigadores, registam a fundação em 1882, por iniciativa do então presidente da Câmara, Augusto da Silva Pinto Ferro. Outras referências apontam para 1880.

A diferença de datas merece investigação documental, mas não altera o essencial: Mindelo teve uma biblioteca pública desde o século XIX, numa época em que a cidade começava a afirmar-se como um dos grandes centros urbanos, portuários e culturais de Cabo Verde.

E a Biblioteca não nasceu sozinha.

Em 1888, surgiu a Sociedade Recreativa Fraternidade; em 1889, a Sociedade Filarmónica de Artistas Mindelenses; e, em 1894, o Clube Luso-Britânico. Em 1899, seria publicada no Mindelo a Revista de Cabo Verde, importante publicação cultural e literária.

Era um Mindelo onde, além de mercadorias e navios, circulavam jornais, revistas, livros, música e ideias.

Uma nova geração, onde o ensino veio reforçar essa dinâmica.

Em 1917, abriu no Mindelo o liceu, inicialmente com 31 alunos. Duas décadas depois, em 1936, já estavam matriculados 366 alunos, numa população de São Vicente que rondava os 15 mil habitantes.
O liceu tornou-se um importante espaço de formação de estudantes vindos de diferentes ilhas e contribuiu de forma decisiva para a afirmação cultural do Mindelo.

É neste ambiente que devemos olhar para o número registado pela Biblioteca em 1932.
5.151 leitores.

Não como prova de que milhares de pessoas alfabetizadas frequentavam diariamente a biblioteca, mas como o sinal vibrante de uma vida leitora que já tinha forte expressão na cidade.
E havia uma realidade bem diferente
Porque o Mindelo de 1932 também era uma cidade de grandes contrastes.

Os dados estatísticos daquele ano apontam para uma população de 13.097 habitantes em São Vicente e indicam que 78% da população era considerada analfabeta ou semi-analfabeta.
É precisamente esta realidade que torna o documento da Biblioteca ainda mais fascinante.

De um lado, uma população maioritariamente afastada da leitura formal. Do outro, uma cidade que possuía biblioteca pública, liceu, imprensa, associações culturais e uma comunidade de leitores suficientemente ativa para registar 5.151 leitores num único ano.

O Mindelo era, portanto, uma cidade de contrastes: uma população com elevados níveis de analfabetismo e, simultaneamente, uma elite e uma comunidade escolar e urbana fortemente ligadas aos livros e à cultura escrita.

3.925 volumes
Há outro número no pequeno recorte que não pode ser esquecido:

3.925 volumes em 31 de dezembro de 1932.

Quase quatro mil livros numa biblioteca municipal de uma cidade de pouco mais de 13 mil habitantes.

Que livros eram esses?
Que autores estavam nas estantes?
Que obras eram mais procuradas?
Quem eram os leitores?
Quantos eram estudantes? Quantos eram funcionários, professores, comerciantes ou outros profissionais?
E quantas mulheres entravam na Biblioteca?

O recorte não responde.
Mas deixa-nos as perguntas.

E talvez os antigos catálogos, livros de registo, atas municipais e jornais da época ainda possam responder a algumas delas.

A Biblioteca também fazia parte da cidade que se modernizava.

Há ainda uma coincidência cronológica curiosa.
Durante a década de 1930, a Câmara Municipal promoveu várias obras de modernização urbana. Entre elas estiveram as obras da Biblioteca Municipal, em 1931, incluindo a alteração da sua fachada.

Um ano depois, encontramos o registo de 5.151 leitores.

Não temos elementos suficientes para afirmar que as obras tenham provocado um aumento direto da frequência. Mas os dois factos pertencem ao mesmo momento da história urbana do Mindelo.

1931 — Obras na Biblioteca Municipal.
1932 — 5.151 leitores e 3.925 volumes.

A cidade mudava.
E os seus espaços de cultura também.
Gente do Mindelo, gente de leituras

Quando pensamos no Mindelo antigo, lembramo-nos naturalmente do Porto Grande, dos navios, dos carvoeiros, dos estivadores, do comércio, dos cafés, dos cinemas, da música e das ruas
Mas havia também outro Mindelo.

O Mindelo dos livros.
O Mindelo dos estudantes.
O Mindelo dos jornais e das revistas.
O Mindelo das sociedades recreativas.

O Mindelo daqueles que entravam numa biblioteca à procura de uma história, de uma informação, de um poema, de uma resposta ou simplesmente de uma viagem através das páginas de um livro.

E em 1932, um pequeno recorte de jornal deixou-nos uma fotografia rara desse Mindelo:

5.151 leitores.
3.925 volumes.

Dois números que atravessaram quase um século para nos lembrar que a história da nossa cidade também se escreveu entre páginas, estantes e leitores.

Porque o Mindelo não era apenas uma cidade que recebia navios. Era também uma cidade que recebia ideias. E havia gente que as procurava nos livros.

Gente do Mindelo, gente de leituras.

NOTA HISTÓRICA

O recorte que serve de base a esta publicação indica 1916 como data de fundação da Biblioteca. No entanto, a bibliografia consultada apresenta datas anteriores, sobretudo 1880 e 1882, para a sua criação.

Por uma questão de rigor histórico, não fixamos 1916 como data de fundação. A discrepância poderá corresponder a uma reorganização, transferência, reabertura ou outra fase da instituição, mas isso exige confirmação documental.

Esta é, aliás, uma excelente pista para uma futura investigação de Memórias d’Mindel.

Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)

Foto: Praia de Bote

FONTES E REFERÊNCIAS
Fonte primária

Recorte de imprensa de 1932, intitulado “Biblioteca Municipal”, reproduzido nesta publicação. Regista 5.151 leitores durante o ano de 1932 e 3.925 volumes em 31 de dezembro.

Referências históricas e bibliográficas

Brito-Semedo, Manuel. A Construção da Identidade Nacional — Análise da Imprensa entre 1877 e 1975. A obra regista a criação da Biblioteca Municipal de São Vicente em 1882 e enquadra o desenvolvimento cultural do Mindelo no final do século XIX.

Swolkien, Dominika. Factores Sociolinguísticos no Povoamento da Ilha de São Vicente de Cabo Verde. ACBLPE, 2003. Inclui dados estatísticos relativos a 1932, população de São Vicente e situação educacional da época.

HPIP — Património de Influência Portuguesa. Informação sobre a evolução urbana do Mindelo e as obras da Biblioteca Municipal na Rua de São João em 1931.

Biblioteca Nacional de Cabo Verde. Referências históricas sobre as primeiras bibliotecas públicas do arquipélago, incluindo a Biblioteca Municipal do Mindelo, datada de 1880.

Turismo de Cabo Verde. Informação patrimonial sobre o atual conjunto arquitetónico da Biblioteca Municipal e Alliance Française do Mindelo.

Fontes primárias que merecem consulta numa investigação posterior: Boletim Oficial da Província de Cabo Verde, Atas da Câmara Municipal de São Vicente, imprensa periódica mindelense, catálogos e livros de registo da Biblioteca Municipal e documentação do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde.

CARAS DA MEMÓRIAQuem se lembra desta "personagem" de Mindelo?Lembrando Olímpio Gomes de Pina - O AibúOlímpio, carinhosam...
16/09/2026

CARAS DA MEMÓRIA
Quem se lembra desta "personagem" de Mindelo?

Lembrando Olímpio Gomes de Pina - O Aibú

Olímpio, carinhosamente mais conhecido por Tchol ou Aibu, faz parte da história popular de São Vicente, recordado por gerações que com ele se cruzaram no centro da cidade em décadas passadas.

​Dedicado ao seu trabalho diário de lavar carros pelas ruas mindelenses para ganhar a vida, tornou-se uma presença constante e marcante na identidade urbana da nossa ilha. Mas o Tchol era muito mais do que isso: quem com ele convivia lembra-se bem do seu gosto especial pelo café, pedindo sempre um miminho e gabando com orgulho que gostava do verdadeiro café vindo da ilha do Fogo, mais precisamente dos Mosteiros.

​Pequenos hábitos, conversas do quotidiano e memórias de verdadeira proximidade que mostram o lado mais genuíno de uma alma que faz parte da nossa gente.

Preservar a história da nossa gente, e seu lugar no coração da comunidade é manter viva a própria alma da cidade.

Memórias d'Mindel – preservando a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)

MEMÓRIAS NAVAISANTES DA CABNAVE, O PLANO INCLINADO - UMA EVOLUÇÃO NO TEMPO - São Vicente, 1891.Muito antes da existência...
12/09/2026

MEMÓRIAS NAVAIS
ANTES DA CABNAVE, O PLANO INCLINADO - UMA EVOLUÇÃO NO TEMPO - São Vicente, 1891.

Muito antes da existência da CABNAVE, muito antes dos estaleiros da Matiota e até antes do Plano Inclinado da Pontinha, já se pensava em dotar São Vicente de meios próprios para a construção e reparação de embarcações.

Uma referência publicada em 1891, na Gazeta dos Caminhos de Ferro, deixa-nos uma pista preciosa: numa concessão para a instalação de um depósito de carvão em São Vicente, previa-se, além da ligação ferroviária entre o depósito e o mar, a construção de:

“um plano inclinado e as officinas precisas para construcção e reparação de embarcações.”

Não encontramos, até ao momento, prova de que esse projeto tenha sido executado. Mas o documento é revelador: já no final do século XIX, a criação de uma infraestrutura de reparação naval fazia parte dos projetos pensados para São Vicente.

E a história não ficou por aí.

1897 — AS OFICINAS DO ESTADO

Na Pontinha, começou a ser construída, em 1897, uma oficina destinada à reparação dos navios utilizados pela Província na fiscalização sanitária do Porto Grande.

A Oficina do Estado (depois referênciada como Oficinas de Artes e Ofícios do Mestre Cunk) não servia apenas para reparar embarcações. Também contribuía para formar profissionais, nomeadamente carpinteiros, serralheiros, caldeireiros e torneiros mecânicos. Em 1900 foi ampliada e, em 1906, seria oficializada uma escola para operários serralheiros.

Mindelo começava, assim, a criar aquilo que todo o grande porto necessita: infraestrutura e conhecimento técnico.

1903 — O PEDIDO DOS HOMENS DA CABOTAGEM

Em abril de 1903, encontramos outra peça importante desta história.

Proprietários de embarcações de cabotagem defendiam junto do Governo a instalação de um plano inclinado, junto das oficinas, para permitir a reparação e limpeza dos navios.

O argumento era também económico: se os vapores que visitavam o Porto Grande necessitavam de reparações, por que razão haveriam esses trabalhos de ser realizados fora de São Vicente?

A ideia era simples e visionária: tirar o navio da água, repará-lo em terra e fazer ficar no Mindelo uma parte da riqueza gerada pelo movimento do porto.

1909 — O PLANO INCLINADO DA PONTINHA

Seis anos depois, em 1909, estava concluído o Plano Inclinado da Pontinha, associado à Oficina do Estado e destinado à alagem dos navios para reparação.

A cartografia histórica do Mindelo identifica, naquele espaço, o Plano Inclinado (27) e a Oficina do Estado (28), lado a lado.

A velha aspiração começava a ganhar forma. Mindelo não queria ser apenas o lugar onde os navios chegavam, abasteciam e partiam. Queria também ter capacidade para cuidar deles.

UMA VOCAÇÃO QUE ATRAVESSOU O SÉCULO

A necessidade de melhorar as condições de alagem e reparação naval não desapareceu nas décadas seguintes:

Décadas de 1920–1930: Em relatórios de governação conservados no Arquivo Histórico Ultramarino, voltava a ser defendida a construção de uma pequena doca ou plano inclinado próximo da Pontinha e das Oficinas do Estado.

1972–1974: Documentação no Arquivo da Defesa Nacional (Fundo SGDN/SAF) regista projetos para carros de alagem de navios e a ampliação das Oficinas Navais de São Vicente.

A tecnologia evoluía, mas a necessidade permanecia a mesma: tirar os navios da água, repará-los e mantê-los em operação.

ONAVE — A PONTE PARA UMA NOVA ERA

No período que antecedeu a criação dos grandes estaleiros nacionais, as Oficinas Navais de São Vicente — ONAVE (ex Oficinas Navais da Wilson) constituíam já a infraestrutura viva de reparação naval em Mindelo.

Era uma realidade de menor escala, mas representava a continuidade direta de uma atividade técnica que a ilha já conhecia e praticava há várias décadas.

1980–1983 — CABNAVE

A 12 de maio de 1980, através do Decreto-Lei n.º 33/80, era criada a CABMAR — Empresa Pública dos Estaleiros Navais, abrindo caminho à constituição da CABNAVE — Estaleiros Navais de Cabo Verde.

Desta vez, já não se tratava de uma pequena oficina junto à Pontinha. O novo empreendimento seria construído na Matiota, numa infraestrutura concebida para a reparação de navios de maior dimensão.

Com primeira pedra lançada em julho de 1982, a CABNAVE entrou oficialmente em funcionamento a 22 de novembro de 1983, marcando uma nova era na história industrial de São Vicente.

DA PONTINHA À MATIOTA: UMA LINHA HISTÓRICA ININTERRUPTA

A CABNAVE não é o antigo Plano Inclinado da Pontinha. Não é a mesma instalação, não ocupa o mesmo lugar e não resulta juridicamente daquela antiga estrutura.

Mas existe algo que atravessa toda esta história: a vocação marítima e operária de Mindelo.
Desde a concessão de 1891, passando pela Oficina do Estado de 1897, pelo pedido dos armadores em 1903, pelo Plano Inclinado da Pontinha de 1909, pelas Oficinas Navais e ONAVE, até aos estaleiros da CABNAVE na Matiota, encontramos uma continuidade histórica com mais de um século.

São Vicente não procurou apenas receber os navios. Procurou, desde cedo, ter capacidade técnica e humana para os reparar.

Há mais de 120 anos, alguém em Mindelo já percebia que um grande porto não vive apenas dos navios que chegam — também precisa da capacidade para cuidar deles.

NOTA HISTORIOGRÁFICA

Critério documental: A documentação disponível não permite afirmar categoricamente que o pedido de 1903 "deu origem" direta à CABNAVE. O registo histórico comprova, sim, que a intenção de dotar São Vicente de capacidade própria de reparação naval esteve presente de forma contínua desde pelo menos 1891.

A ligação entre o pedido de 1903 e a inauguração do Plano Inclinado da Pontinha em 1909 constitui uma hipótese cronológica sólida, fundamentada na associação às Oficinas do Estado, permanecendo em aberto a confirmação por contrato de empreitada do período.

Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)

Memórias d'Mindel – preservando a memória, a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Fonte/Foto 1: Praia d'Bote
Fonte/Fotos 2 e 3: Arquivo Histórico Ultramarino

FONTES E REFERÊNCIAS
Fontes primárias e documentação histórica

Gazeta dos Caminhos de Ferro (1891): Referência à concessão em São Vicente que previa a construção de “um plano inclinado e as officinas precisas para construcção e reparação de embarcações”.

Documento de Imprensa (Abril de 1903): Recorte de jornal com a proposta dos proprietários de embarcações de cabotagem para a instalação de um plano inclinado. (Arquivo particular / coleção consultada para esta investigação).

Arquivo Histórico Ultramarino (AHU): Documentação do Governo de São Vicente relativa aos melhoramentos do Porto Grande (décadas de 1920–1930).

Arquivo da Defesa Nacional (Portugal, Fundo SGDN/SAF): Documentação de 1972–1974 relativa ao projeto de carros de alagem e ampliação das Oficinas Navais de São Vicente.

Boletim Oficial de Cabo Verde (1980): Decreto-Lei n.º 33/80, de 12 de maio (criação da CABMAR e enquadramento da CABNAVE).

Bibliografia e estudos

FONSECA, Crisolita Fortes: Estudos sobre a evolução urbana e portuária do Mindelo.

Mindelo: uma cidade, uma forma urbana: Estudo com cartografia histórica identificando o Plano Inclinado (27) e a Oficina do Estado (28).

SILVA, António Correia e (2005): Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo.

OLIVEIRA, Nelson Marques: Estudo sobre a CABNAVE (ISCTE-IUL), registando a constituição, o lançamento da primeira pedra (julho de 1982) e a inauguração a 22 de novembro de 1983.

MEMÓRIAS CINEMATOGRÁFICAS Quando o Éden Park deixou de ser Mudo"Once upon a time"... o Éden Park era um cinema sem vozes...
09/09/2026

MEMÓRIAS CINEMATOGRÁFICAS
Quando o Éden Park deixou de ser Mudo

"Once upon a time"... o Éden Park era um cinema sem vozes. As imagens moviam-se no grande ecrã, mas os personagens não falavam. A música podia acompanhar a sessão, o público reagia, ria, aplaudia e gritava — mas o som ainda não vinha da própria película.

Até que o Mindelo entrou numa nova era. E essa história começou a ser anunciada em Novembro de 1933
“Cinema Sonoro” — A Promessa de 1933

Um precioso recorte do jornal Notícias de Cabo Verde, de Novembro de 1933, permite-nos recuar até ao momento em que a administração do Éden Park decidiu enfrentar a revolução tecnológica que transformava o cinema mundial.

Sob o título “MELHORAMENTO DE VULTO — CINEMA SONORO”, o jornal escrevia:

“Sabemos de fonte segura, estar em adiantadas negociações para a breve sonorização do Eden-Park.”

A notícia não anunciava ainda a chegada do som, mas sim o ousado projeto de sonorização. Não era uma transformação barata: o artigo explicava que o empreendimento exigiria um “considerável esforço financeiro”, podendo mesmo obrigar o Éden Park à admissão de novos sócios.

A imprensa compreendia a dimensão da mudança e falava da “agonia do cinema mudo”, prevendo que o som inauguraria uma “nova época de grande alvoroço e novidade”. Era uma notícia sobre tecnologia, mas também sobre visão e sobrevivência empresarial.

O Éden Park Antes do Som

Inaugurado em 1922 por César Marques da Silva, o Éden Park começou num edifício muito mais modesto do que aquele que permanece na memória dos mindelenses. Segundo testemunhos recolhidos, funcionava inicialmente quase como um "barracão, com frisas de madeira" e sessões de cinema uma ou duas vezes por semana.

Os filmes eram mudos, mas a sala nunca foi silenciosa. A música ao vivo fazia parte da experiência e o espaço afirmava-se como um dos grandes pontos de convivência cultural da ilha, acolhendo bailes, teatro, boxe, conferências e recitais.

A grande revolução do cinema sonoro traria algo inédito: pela primeira vez, a voz, a música e os efeitos sonoros estariam perfeitamente sincronizados com as imagens projetadas.

1933 — O Mindelo Queria Ouvir o Cinema

Quando o Notícias de Cabo Verde anunciou a novidade em 1933, o cinema sonoro já era uma realidade consolidada internacionalmente. Em Portugal, a revolução tinha chegado em 18 de Junho de 1931 com a estreia de A Severa, de Leitão de Barros — a primeira longa-metragem sonora portuguesa, sonorizada em França e inspirada na vida da famosa fadista Maria Severa.

Em São Vicente, César Marques da Silva buscava trazer essa modernidade para a cidade, mas entre o anúncio e a concretização haveria ainda quase três anos de espera.

6 de Julho de 1936 —
A Noite em que o Éden Park Ganhou Voz

A data exata está registada no depoimento de D. Maria Luísa Marques da Silva, sócia-gerente do Éden Park, recolhido numa investigação académica sobre o cinema mindelense: 6 de Julho de 1936.
O filme escolhido para inaugurar a nova era foi precisamente A Severa.

A sessão foi um acontecimento marcante e encheu completamente o recinto. Após 14 anos de cinema mudo, o Éden Park entrava na era do som.
César Marques percebeu que aquela estreia exigia uma divulgação à altura.

Segundo Maria Luísa Marques da Silva, foram preparadas faixas para os funcionários com a inscrição: “JÁ NÃO SOMOS MUDOS” — Os funcionários foram enviados às festas de São João ostentando as faixas para anunciar a grande novidade. Décadas antes do marketing digital, o Éden Park já demonstrava uma intuição brilhante para campanhas de lançamento na cidade.

E Por Que "A Severa"?

A escolha foi profundamente simbólica. Sendo a obra pioneira do cinema sonoro português, trazia no centro a música e a voz de uma figura icónica do fado.

O primeiro grande encontro do público mindelense com o som no cinema aconteceu através de uma obra onde a canção era protagonista. O que antes apenas se contemplava, passava a ser ouvido. Para o Mindelo — cidade visceralmente ligada à música —, não haveria melhor cartão de visita para esta nova era.

O Som Continuou

A Severa abriu as portas para uma nova rotina. Entre os primeiros títulos desta fase esteve também As Pupilas do Senhor Reitor, exibido por um operador português de cinema ambulante que percorria as ilhas com o seu equipamento.

A inovação alterou o quotidiano da sala: a projeção passou a exigir um novo rigor técnico para regular a aparelhagem e sincronizar som e imagem. Nos finais da década de 1930, Guilherme Melo (o conhecido Tuta Melo), cujo pai havia sido sócio de César Marques da Silva, assumiu a responsabilidade técnica e a projeção no Éden Park.

1938 — A Consolidação do Espaço

Em 1938, o Éden Park firmou um contrato de distribuição com uma importante companhia cinematográfica portuguesa, garantindo a exibição regular dos grandes sucessos de Lisboa. A frequência das sessões aumentou progressivamente até atingir exibições diárias no início dos anos 1940.

Precisão Histórica

É fundamental preservar uma distinção histórica:
Novembro de 1933: Data da notícia documentada sobre as negociações de sonorização.

6 de Julho de 1936: Data histórica da primeira exibição sonora (A Severa) no Éden Park.

Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)

Memórias d'Mindel – preservando a memória, a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Fonte/Foto 1: Praia d'Bote
Fonte/Foto 2: Cinema Português

(Nota: A marca e o modelo exatos do primeiro projetor sonoro instalado em 1936 permanecem, até ao momento, por identificar na documentação conhecida).

Fontes principais: Jornal Notícias de Cabo Verde (Nov. 1933); Testemunho de Maria Luísa Marques da Silva (em estudo de Astrigilda Pinheiro e Vânia Gomes);

Superámos novamente o meio milhão de visualizações (539 981)Alcançar, novamente, a marca de mais de 500 mil visualizaçõe...
08/09/2026

Superámos novamente o meio milhão de visualizações (539 981)

Alcançar, novamente, a marca de mais de 500 mil visualizações no último mês é um marco expressivo, mas o verdadeiro valor de Memórias d’Mindel não se mede apenas em números.

Mede-se pelo impacto, pela ligação emocional e pelo resgate contínuo da identidade e do património cultural da nossa ilha São Vicente.

​Como nos lembram diariamente os leitores que acompanham e partilham esta jornada, preservar a história é um ato de cidadania e de amor às nossas raízes.

Temos o compromisso de manter a memória de São Vicente acessível a todos — para os que aqui vivem, para a nossa diáspora e para as futuras gerações.

A história da nossa ilha continua viva porque a contamos juntos.

Bem-vindos!
Edição/Redação: Lucas Leite Monteiro (Deluca)

MEMÓRIAS NÁUTICAS | A ESCOLA NÁUTICA DO MINDELOFalar de mar, de marinheiros e de homens do mar é falar de Mindelo. Duran...
07/09/2026

MEMÓRIAS NÁUTICAS |
A ESCOLA NÁUTICA DO MINDELO

Falar de mar, de marinheiros e de homens do mar é falar de Mindelo. Durante gerações, o mar não foi apenas o horizonte desta cidade: foi profissão, sustento, escola, destino e forma de vida. O Porto Grande trouxe os navios, os navios trouxeram o mundo, e Mindelo formou homens e mulheres para viverem desse mundo que chegava e partia pelo mar.

O documento que hoje partilhamos, datado de 20 de Maio de 1971, é um pequeno anúncio de jornal, mas guarda uma parte importante dessa história. Sob o título “Escola Náutica do Mindelo — AVISO”, anunciava-se a abertura das inscrições para o ano preparatório do curso de Pilotagem para o ano lectivo de 1971/72. Os candidatos deveriam cumprir determinadas condições de idade e habilitações escolares, apresentar certificado de registo criminal, possuir aptidão física comprovada e, sendo menores, apresentar autorização dos pais ou tutores. Para além do curso preparatório, o aviso estabelecia também as condições de acesso ao 1.º ano do ensino especial, destinado à formação náutica.

Era assim que, há mais de meio século, se começava a preparar uma nova geração de profissionais para a Marinha Mercante.
Uma escola nascida da vocação marítima de Mindelo

A criação da Escola Náutica não foi um acontecimento isolado. A formação marítima em Cabo Verde já tinha uma história anterior: a Escola de Cabotagem de Cabo Verde, criada em 1958 com sede no Mindelo, constituía um antecedente importante. Em 1970 surgiria a Escola Náutica, dando um novo enquadramento à formação marítima.

A legislação da época previa para a Escola Náutica cursos destinados à formação de profissionais da Marinha Mercante, abrangendo áreas como Pilotagem, Máquinas Marítimas, Radiotelegrafia e Comissário. Ou seja, não se tratava apenas de ensinar a navegar: tratava-se de formar os profissionais que "faziam funcionar um navio" — pilotos, maquinistas, radiotelegrafistas e comissários. Eram homens preparados para enfrentar o Atlântico e exercer uma profissão que exigia conhecimento, disciplina, responsabilidade e coragem.

O anúncio que vemos hoje permite-nos imaginar os jovens que, naquele Maio de 1971, terão entrado pela porta da escola com um propósito muito concreto: um dia embarcar.

De Mindelo para o mundo

Para muitos jovens mindelenses, entrar numa escola náutica significava também abrir uma porta para além da ilha. Era aprender uma profissão que podia levar um rapaz de Mindelo para outros portos, outros países e outros continentes. O mar, que tantas vezes separava famílias, era também aquele que proporcionava trabalho e permitia a muitos cabo-verdianos construir uma vida muito para além das ilhas.

Por isso, a história da formação marítima em São Vicente não pode ser separada da própria história social do Mindelo. Quantas famílias tiveram um pai, um irmão, um filho ou um tio embarcado? Quantas histórias começaram junto ao cais, com uma mala preparada, uma despedida e um navio à espera?

Uma Tradição que chegou aos nossos dias

A Escola Náutica de 1970 seria apenas uma etapa de uma longa evolução institucional. Depois da Independência, em 1982, foi criado o Centro de Formação Náutica (CFN), que iniciou as suas actividades de formação em 1984. Em 1996, o CFN deu lugar ao Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar — ISECMAR. Mais tarde, a formação marítima passou pela Universidade de Cabo Verde e, com a criação da Universidade Técnica do Atlântico (UTA), o ISECMAR passou a integrar esta universidade.

Hoje, em São Vicente, o ISECMAR-UTA continua a assegurar a formação superior ligada ao mar, mantendo viva essa tradição de preparação de quadros para o sector marítimo. A própria UTA apresenta esta evolução como uma continuidade histórica da formação marítima cabo-verdiana. Ao mesmo tempo, a criação da Escola do Mar (EMAR) deu continuidade à vertente de formação modular e técnico-profissional marítima, aproveitando a experiência e os recursos acumulados ao longo dessa história.

A EMAR identifica expressamente a sua herança institucional na antiga Escola Náutica/CFN e nas estruturas que lhe sucederam. Assim, a Escola Náutica de ontem e as instituições marítimas de hoje fazem parte de uma mesma história de formação para o mar.

O mar continua a ser escola

Mais de cinco décadas separam o jovem que, em 1971, procurava a Escola Náutica do Mindelo do estudante que hoje entra no ISECMAR-UTA. Mudaram os navios, os instrumentos, as tecnologias e as exigências da profissão, mas permanece aquilo que talvez seja mais importante: a vocação marítima de Mindelo.

Nesta cidade, o mar nunca esteve simplesmente diante dos nossos olhos; o mar esteve — e continua a estar — dentro da nossa história. Aquele pequeno aviso de 20 de Maio de 1971, aparentemente apenas destinado a anunciar matrículas, é hoje uma janela para uma geração de jovens que sonhava com o uniforme, o embarque, a ponte de comando e o horizonte aberto — jovens que aprenderam em Mindelo para trabalhar no mar e que, como tantos outros antes e depois deles, levaram consigo o nome de São Vicente e de Cabo Verde para muito além da Baía do Porto Grande.

Pesquisa, Cruzamento de fontes, Contexto histórico, Redação e edição: Lucas Leite Monteiro (Deluca)

Memórias d'Mindel – preservando a memória, a história, as pessoas e o património que fazem a alma da nossa cidade.

Foto: Praia d'Bote (Joaquim Saial)

FONTES BIBLIOGRÁFICAS E DOCUMENTAIS
​Documentos de Arquivo & Imprensa:

​Jornal / Imprensa de Época: Recorte de imprensa de 20 de Maio de 1971, contendo o “AVISO — Escola Náutica do Mindelo” (datado de 12 de Maio de 1971 e assinado pelo Director João José de Freitas Ribeiro Pacheco).

​Legislação Histórica: Decreto-Lei n.º 36 507, de 17 de Setembro de 1947 (Aprova o Estatuto da Formação Náutica / Enquadramento de Cursos da Marinha Mercante).

​Fontes Institucionais & Histórico-Evolutivas:

​Universidade Técnica do Atlântico (UTA / ISECMAR): Historial do Ensino e Formação Marítima em Cabo Verde (da Escola de Cabotagem de 1958 e Escola Náutica de 1970 ao Centro de Formação Náutica - CFN em 1982/1984 e ISECMAR em 1996).

​Escola do Mar (EMAR): Enquadramento da Formação Técnico-Profissional Marítima e Herança Institucional Náutica.

​Governo de Cabo Verde / Ministério do Mar: Registos e Enquadramento da Continuidade da Formação Superior e Profissionalizante no Sector Marítimo.

Endereço

Centro Histórico De Mindelo
Mindelo

Telefone

+2389187389

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