26/08/2026
A MADRASTA
Numa aldeia de Bengo vivia a pequena Nzinga. 9 anos. Olhos grandes e mãos calejadas.
A mãe morreu de febre. 1 ano depois o pai casou de novo com a Dona Tetembwa. Bonita por fora, cobra por dentro.
Tetembwa não deixava Nzinga comer na mesa. "Comida de empregada é no chão" dizia ela.
Não deixava ir na escola. "Estudar pra quê? Bacia com água na cabeça e arrumar à casa é que dá futuro".
Todo dia antes do sol nascer, buscar água no rio, varrer o quintal, lavar roupa na bacia até a mão sangrar. Se reclamasse, era chicotada..."sua mãe te abandonou, sua besta" dizia Tetembwa.
O pai via e calava. "É pra ela aprender" dizia ele.
Nzinga chorava sozinha de noite. Até que começou a conversar com os Kisangos - os espíritos das árvores antigas atrás de casa. Deixava oferenda: um pouco de funge e água limpa.
Numa noite de lua cheia, os Kisangos falaram:
"Filha, na próxima chuva forte, não corra pra dentro. Fique debaixo da mangueira velha e peça ajuda."
Veio a tempestade. Tetembwa mandou Nzinga lavar roupa na chuva.
Nzinga foi pra debaixo da mangueira e chorou: "Ancestrais, me tirem daqui".
Um vento forte veio. A mangueira abriu ao meio... e apareceu uma porta de raízes.
Nzinga entrou. A porta fechou.
Dona Tetembwa e seu marido procuraram 3 dias. Acharam só o bacia quebrada e as roupas molhadas.
15 anos depois, um comerciante chegou na aldeia. Era Nzinga. Moça formada, dona de loja, com ouro no pescoço.
Disse que os Kisangos levaram ela pra uma aldeia distante onde foi criada por uma anciã que não tinha filhos.
Tetembwa correu pra pedir perdão. Nzinga olhou nos olhos dela e disse:
"Eu perdoo. Mas nunca mais pise na minha casa. Quem maltrata criança, os espíritos da terra anotam."
Naquela noite, a bacia da Tetembwa rachou sozinho. E toda vez que chove forte, Tetembwa é arrastada pelas águas da chuva e os vizinhos juram ouvir uma menina rindo vindo de dentro das correntezas da água.
Moral africana: Os ancestrais não esquecem quem maltrata os pequenos. A dor planta, mas a raiz certa faz crescer mesmo na pedra. Quem planta maldade, colhe solidão.
O que achou do final da Madrasta, será que ela mereceu?